Todos os automóveis dividem-se em duas categorias: “chapéu” e “ferro de passar”. Há ainda os maiores, que são os todo-o-terreno. Essa classificação, que ouvi em algum lugar, me agrada inteiramente, embora deixe perplexos aqueles que entendem de carros. Eu não sofro de deficiência automobilística, eu a desfruto.
Há dois anos, dirigir tornou-se mais cômodo para mim. Explico: “ferro de passar” é algo semelhante a uma Toyota Caldina; “chapéu” é um carro com carroceria tipo sedan. Foi assim que um taxista me explicou.
Felizmente, há muitas mulheres excelentes que se sentem como peixes dentro d’água ao volante. Ou como peixes batendo a cabeça no gelo, dependendo da sorte de cada uma. É sobre elas que falaremos agora. Nem todas são loiras, e uma boa quantidade delas dirige tão bem quanto o motorista médio. Uma quantidade considerável, aliás. Como é possível determinar, pela máquina, que tipo de mulher está à sua frente, qual é o seu caráter e temperamento?
Há carros nos quais você se afunda como em um ninho forrado de pele. Ou como em um ninho. Dá a impressão de que a mulher está no assento traseiro para chocar ovos, e não para se locomover no espaço. Os revestimentos são macios, brancos, com um pelo de dez centímetros. Cheira a limpeza e lã natural. O volante também tem capa de pele e lembra um travesseiro. Nesse tipo de automóvel, a gente sente vontade de pedir asilo político e viver para sempre no banco traseiro, afundado na pele.
A dona desse prodígio é uma jovem mulher nervosa, claro que bonita e meticulosa. A maciez dos assentos e do volante no carro equilibra os ângulos agudos do seu caráter. Quanto mais acolhedor e sonolento for o seu carro, mais gelados serão os seus relacionamentos. Não há música no interior; essa mulher escuta atentamente a si mesma.
A mulher em um carro esportivo vai virar do avesso tudo o que você sabe sobre mulheres. Ou enriquecer esse conhecimento. Ela não vai cozinhar, mas vai tomar cerveja ao seu lado e torcer pelo CSKA ou por outra equipe com a mesma intensidade. Se você for indiferente a jogos de equipe, ela mesma começará a fazer viagens semanais aos estádios e encontros de torcedores. Além disso, os amantes de carros esportivos têm clubes, e ela também frequentará essas festas regularmente. Vantagem: essa mulher se sustenta sozinha. Desvantagem: a autossuficiência dela praticamente a exclui da sua vida. Escuta rock russo ou canções de torcida sobre o time do coração. Usa perfume masculino.
A mulher em um jipe. Pode-se dizer com certeza que o jipe foi presente do marido. O marido é abastado e autoritário. Nenhuma mulher em sã consciência compraria um jipe com o dinheiro que ganhou com o suor do rosto. Afinal, você não compra um sofá-cama para uma criança, certo? Se existir uma mulher que escolheu conscientemente um jipe, então ou é uma mulher fazendeira, ou, desculpe a franqueza, não é bem uma mulher. Do contrário, de onde viria essa atração por tamanhos avantajados? Escuta ou canções populares russas, ou a rádio Dachá.
A mulher em um carro nacional inspira um respeito reverencial. No geral, ela conquistou tudo na vida sozinha. Mulheres não compram carros soviéticos por vontade própria; elas os herdam. Essas mulheres têm uma vontade de aço e uma psique fora do comum. Muitos homens desistem, não aguentando a convivência nem com os carros nacionais, nem com essas mulheres. Ela até gostaria de ouvir música, mas o toca-fitas foi roubado.
A mulher em um carro pequeno e feminino é um alvo fácil para todos os indivíduos do sexo masculino, desde os funcionários da polícia de trânsito até gatinhos de rua. Ela olha no espelhinho a cada minuto. No interior do carro, cheira a desodorante automotivo e perfumes. O carro, junto com a carteira de motorista, foi presente de um filho ou de um amante. Essa mulher costuma ouvir palavrões vindos dos carros vizinhos.
Como determinar o caráter e o temperamento de uma mulher se no carro dela há revestimentos furados, pedras no chão, biscoitos nos assentos, uma cadeirinha infantil, uma camada de poeira de um centímetro, caixinhas vazias de suco e embrulhos de sorvete, além de uma maçã podre no bolso do encosto? Aqui, não precisa explicar. Esse é o meu carro.





