O Monstro. TREZE PORTAS. História dos ensinamentos esotéricos “de Adão até hoje”. P R E F Á C I O
Sem artifícios aprendi, sem inveja ensino.
Sabedoria de Salomão, 6:13.
Este livro surgiu a partir de um curso de palestras ministradas pelo autor em 1994-95 na Universidade de História da Cultura. O autor há muito nutria o desejo de tentar expor de forma complexa e objetiva a história do surgimento do que hoje se costuma chamar de esoterismo, pois até então não existia tal exposição.
Embora existam muitos livros que descrevem as visões de nossos antepassados sobre diversos temas esotéricos, nenhum deles atende ao princípio formulado ainda por Jâmblico: deve-se falar sobre esoterismo na linguagem do esoterismo, e sobre filosofia na linguagem da filosofia. Esses livros descrevem a história e o conteúdo dos ensinamentos esotéricos do ponto de vista (ou dentro dos limites) da história da filosofia, da história da religião ou até mesmo da “História dos preconceitos e da magia”, como o conhecido livro de Alfred Lehmann. E, embora o esoterismo esteja relacionado a todas essas áreas do pensamento humano, ele ainda é um campo especial da consciência humana, cujo melhor entendimento requer uma abordagem propriamente esotérica — ou seja, não apenas leva em conta os termos e categorias aceitos pelos esotéricos, mas também está livre de qualquer inclinação a uma ou outra direção filosófica, religiosa ou “preconceituosa-mágica”. Afinal, um esotérico pode ser tanto um filósofo (Ibn Arabi, F. Bacon) ou um teólogo (Orígenes, P. Florenski), quanto um poeta ou escritor (G. Chesterton, D. Andreev), ou até mesmo um simples sapateiro (Hassanlar, Jacob Böhme). Além disso, ao longo dos séculos, o esoterismo acumulou tantas lendas e mitos que seu verdadeiro conteúdo se perdeu por trás deles, embora seja simples e praticamente único em todos os tempos. Portanto, este curso, na verdade, poderia ser chamado de “História e Sentido dos Ensinamentos Esotéricos”, mas o nome não é o mais importante.
O tema, é claro, é muito vasto e merece não um livro, mas uma obra monumental em vários volumes, como Le monde primitif analyse et compare avec le monde moderne (“O mundo primitivo, analisado e comparado com o mundo moderno”) de Antoine Court de Gébelin. Court de Gébelin e outros autores que se propuseram a essa tarefa impossível, como se sabe, não concluíram suas obras: provavelmente, tal trabalho jamais poderá ser concluído.
Por isso, o autor limitou-se a uma tarefa, se não tão nobre, pelo menos realizável. Este livro é uma exposição popular (ou, talvez, científico-popular) da verdadeira HISTÓRIA do desenvolvimento do pensamento esotérico, sem se curvar diante de seus profetas ou correntes específicas, nem cair no excesso de criticismo motivado por preferências por outras direções.
Por isso, naturalmente, a exposição ficou breve e incompleta no sentido de que muitas nuances extremamente interessantes (especialmente polêmicas) tiveram de ser omitidas. O autor foi obrigado a se restringir apenas ao que lhe parecia mais importante. Em certa medida, isso pode ser considerado subjetivismo, pois outro autor certamente destacaria outros pontos, citaria outros autores, etc.
No entanto, décadas de experiência do autor na área da filosofia, teologia e, propriamente, do esoterismo, dão-lhe o direito de esperar que seu subjetivismo seja “menos subjetivo” do que o de seus ouvintes, que logo passaram a criticar suas palestras com entusiasmo. Além disso, geralmente, eles gostavam de tudo, exceto do que dizia respeito à sua especialidade: assim, os sinólogos ouviam com entusiasmo sobre a Índia, a Grécia e a África, criticando o autor pela falta de profundidade na abordagem da China; os egiptólogos agradeciam pelas informações sobre rosacruzes e maçons, mas lamentavam a pouca atenção dada às riquezas da cultura egípcia antiga; budistas e krishnaitas ficavam insatisfeitos com a secura da apresentação sobre as visões de seus predecessores indianos, e teólogos de todas as religiões mundiais balançavam a cabeça, criticando o autor por sua “irreligiosidade”. Sem mencionar os “iniciados” modernos, que não toleram nenhuma tentativa de se colocar ACIMA do ensinamento que consideram seu amado.
O autor, considerando-se um esotérico por vocação, não nega isso. Seja como for, ele não escreveu suas palestras para fiéis/adeptos de uma ou outra corrente, mas para pessoas que ainda não sabem de nada e, por isso, tentou evitar “doutrinação”, para que cada um pudesse escolher por si mesmo o ensinamento que mais lhe agradasse, sem que o autor tentasse incliná-lo para sua própria fé. Embora, é claro, ele tenha suas próprias convicções.
O autor agradece aos fundadores da Universidade de História da Cultura por terem lhe dado tempo e incentivado a realizar este trabalho. E, mesmo que o resultado tenha sido breve e popular (“para estudantes”), nele poderão encontrar algo novo tanto filósofos e teólogos atuais, quanto poetas, escritores e simples sapateiros. Pois só pode ser considerado um verdadeiro sapateiro aquele que aprendeu a julgar acima de sua própria bota.
O autor também tentou, na medida do possível, unificar a terminologia usada pelos esotéricos de diferentes correntes, pois esse é um problema delicado, uma das pedras de tropeço que dificultam o entendimento entre as diversas escolas. Aliás, esse problema não é exclusivo do esoterismo, mas afeta a maioria das outras ciências, mesmo as mais acadêmicas, e só podemos esperar que a era de Aquário, que se aproxima, ajude todos os pesquisadores a se entenderem.
Isso explica também a grafia da palavra “mundo” no sentido de “Universo” (`o Kosmos) com “i” minúsculo, enquanto “mundo” no sentido de “ausência de guerra” (`h’ Eirhnh) é escrito com “i” normal, como é comum em obras teológicas: ao autor pareceu mais conveniente, e ao leitor não fará mal algum.
História dos ensinamentos esotéricos
1. O que é esoterismo
2. Culturas pré-históricas
3. Era de Áries
4. China e Tibete
5. Índia e Pérsia
6. Culturas exóticas (Bambara, Benin, Suriname, xamanismo)
7. Suméria e Babilônia
8. Cabalistas e sufis
9. Gregos e bárbaros
10. Europa cristã
11. Século XVIII
12. Século XIX
13. Século XX
O Monstro. História dos ensinamentos esotéricos
Palestra 1. O que é esoterismo
Na ética confuciana existia o conceito de “zhengming”, literalmente “correção dos nomes”, significando que o nome deve corresponder à essência da coisa. O problema da unidade terminológica, ou melhor, de sua ausência, há muito tempo é uma questão premente em todas as áreas do conhecimento humano, e o esoterismo não é exceção. Por isso, gostaria de começar com a definição de conceitos. Principalmente porque muitos dos conceitos aos quais nos voltaremos nesta palestra ganharam nova vida várias vezes ao longo de nossa história.
***
As pessoas nunca duvidaram de que, ao lado do mundo visível, existe um mundo invisível, qualquer que fosse a denominação que lhe fosse dada. Na aurora da história humana, esses dois mundos nem sequer eram separados na consciência humana: homens e deuses coexistiam, e cada coisa possuía uma alma. Mais tarde, ocorreu certa diferenciação, mas eles ainda eram unidos pela crença na unidade das leis que governam ambos os mundos. O ensinamento sobre a unidade dessas leis é o que hoje chamamos de esoterismo.
ESOTERISMO, t. esotérica, esotérico: essas palavras derivam do grego esoterikós, “interno”. O termo surgiu na época helenística (séculos IV-III a.C.). Historicamente, ele designava o conhecimento secreto, a “DOUTRINA INTERNA” de uma religião, filosofia ou outro ensinamento, acessível apenas após ritos superiores de iniciação, em contraste com o EXOTERISMO, “externo”, cujo estudo não só era acessível a todos, como também lhes era obrigatório.
Compare: o ensinamento secreto e o “currículo geral” de Pitágoras, batin e zahir nos ismaelitas, os mistérios cristãos, dos quais, na Igreja Ortodoxa, todos os sete são acessíveis tanto a clérigos quanto a leigos; na Igreja Católica, apenas os sacerdotes têm acesso a eles; os vários graus de iniciação maçônica (do primeiro ao terceiro nos ritos franceses e até ao trigésimo terceiro nos escoceses); e, por fim, os segredos do Politburo, acessíveis apenas a um círculo muito restrito, por um lado, e as aulas de política geral que muitos de nós ainda se lembram, por outro. O iniciado no conhecimento esotérico devia guardá-lo em segredo — e, naturalmente, se sentia escolhido, pertencente à “elite”.
Hoje, o ESOTERISMO é um termo geral que designa a doutrina moderna ou, mais precisamente, a visão de mundo e do homem como uma unidade do macrocosmo e do microcosmo, que não se limita ao estudo de suas características materiais, mas sim um método de conhecimento da “essência interior” de todas as coisas, cuja medida, como se sabe, é o próprio homem.
Além disso, desde os tempos de “grande casaco” de Cagliostro (final do século XVIII), e definitivamente a partir de Madame Blavatsky (final do século XIX) e Aleister Crowley (início do século XX), o esoterismo moderno baseia-se no estudo comparativo das doutrinas do Oriente e do Ocidente, cujo objetivo é ajudar o homem a conhecer, em primeiro lugar, a si mesmo, já que a medida de todas as coisas é ele próprio, pois sem isso não poderá conhecer o resto. E o autoconhecimento, como se sabe, não é apenas a tarefa mais antiga, mas também a mais difícil que já foi proposta ao homem. Não é à toa que no templo de Apolo em Delfos estava escrito: Gnwri se auton — “Conhece-te a ti mesmo”.
Esse termo se estabeleceu definitivamente após a Segunda Guerra Mundial no Ocidente como uma palavra destinada a substituir dois termos semelhantes e, em geral, sinônimos, cujos significados haviam mudado até então: HERMETISMO e OCULTISMO.
Se não nos atermos a detalhes, todos os três termos designam a mesma coisa: em um sentido filosófico, uma certa visão de mundo que pressupõe que o desconhecido, e até mesmo o que é reconhecido como desconhecido, requer uma atitude tão reverente e uma abordagem tão rigorosamente científica quanto o que já é conhecido ou reconhecido como cognoscível; e, em um sentido prático, um conjunto de disciplinas que estudam as leis comuns a ambos.
Qual é a diferença entre eles?
A palavra HERMETISMO, assim como a palavra ESOTERISMO, foi cunhada pelos gregos na época helenística ou um pouco antes. Heródoto (484–425 a.C.) fala sobre os sacerdotes egípcios que possuíam conhecimento secreto e o remetiam a algum Hermes Trismegisto, nome do qual a palavra foi derivada.
Da mesma palavra, ou melhor, do nome, derivam também o conceito de “hermenêutica” — a arte de interpretar textos sagrados, o termo “exegese”, que ganhou destaque na prática ortodoxa (interpretação das Sagradas Escrituras), e a palavra “hermético”, no sentido de “hermeticamente fechado”.
Os antigos, e até mesmo os gregos da era helenística, ao adentrarem terras estrangeiras, não se preocupavam com hermenêutica, ou seja, não se aprofundavam nos detalhes do panteão local. Eles simplesmente equiparavam os deuses locais aos seus próprios — principalmente em termos de funções, embora essas funções também fossem alteradas ao longo do tempo nos deuses gregos.
Imagine a seguinte cena: no tempo de Alexandre, o Grande, um sábio grego chega ao Egito. Ele é levado a um santuário do deus Thoth (esse é o nome que ele pronuncia).
— Como se chama esse seu deus? “Interpretador”? Ele deu aos homens a escrita, os números e a arte de medir? Então, esse é Hermes!
Entre os egípcios, esse deus era chamado de Djehuty (aquele), e o centro de seu culto era a cidade de Khemenu, no sul do Egito, que os gregos chamavam de Hermópolis. Esse deus era uma divindade lunar, representada com dois chifres: os chifres serviam como símbolo de sabedoria e magistério. Mais tarde, isso se refletiu na designação (árabe) de Alexandre, o Grande: Dhu al-Qarnayn (o de Dois Chifres). Os chifres (na forma de raios de luz) como símbolo de sabedoria também adornam as imagens do profeta Moisés e de outros grandes reformadores.
Na realidade, é evidente que, a princípio, Thoth não era um deus, mas um sacerdote do templo de um antigo deus lunar com o mesmo nome (Thoth, Djehuty) naquela cidade, um sábio. A história, afinal, é escrita retrospectivamente, e quanto mais distante dos eventos descritos, mais grandiosa e bela ela parece.
Por fim, ele foi deificado — primeiro pelos egípcios, depois pelos gregos. No entanto, ao contrário de seu deus Hermes — uma antiga divindade acádia que personificava as forças da natureza —, os gregos chamaram o Hermes egípcio de “Três Vezes Grande” (Trismegisto).
Na virada da Antiguidade para a era helenística, surgiram as ciências herméticas, que estudavam os fenômenos de um plano (nível) de existência por meio de suas manifestações em outros planos, de acordo com o princípio da semelhança. Esse princípio, também chamado de lei da analogia (ou simpatia), foi, segundo a tradição, descoberto pelo próprio Hermes Trismegisto e expresso na famosa fórmula: “O que está em cima é como o que está embaixo”.
A era helenística, em geral, é um divisor de águas entre o mundo antigo e o novo. Por que isso aconteceu, veremos mais tarde. Quando foi isso? Contem a partir de Alexandre, o Grande: 333 a.C., drei — drei — drei, bei Issos Keilerei, como decoravam os alunos alemães do ginásio, a vitória em Isso.
Aqueles que viveram antes dessa época nos parecem pessoas bastante selvagens ou, no mínimo, estranhas. Para confirmar isso, basta tentar ler os livros do Antigo Testamento, escritos antes da época de Alexandre ou, para sermos precisos, antes de Esdras e seu discípulo Neemias (século V a.C.). O homem moderno não compreende a lógica pela qual os autores desses livros e seus heróis eram guiados. Como certa vez disse Viktor Vasilyevich Bychkov, filósofo e historiador da cultura, “o tempo todo parece que eles eram alienígenas”. Nossa lógica começa com o Eclesiastes.
Mais tarde, Hermes, como sábio e possuidor de conhecimento secreto, foi invocado pelos gnósticos. Clemente de Alexandria (século III d.C.) considerava-o autor de 42 obras de conteúdo astrológico-cosmográfico e religioso. Nas versões gregas e latinas que chegaram até nós, estão: “Sobre a Natureza dos Deuses” (De natura deorum), “Poimandres ou Sobre o Poder e a Sabedoria de Deus” (Poimandres sive de potestate et sapientia Dei) e a famosa “Tábua de Esmeralda” (Tabula smaragdina). Para mais detalhes, ver, por exemplo, Agapova Z. Hermes — deus do conhecimento da terra e do céu. Almanaque “Hermes”, Moscou, 1992.
Assim, naquela época, sob HERMETISMO, as pessoas entendiam uma doutrina que surgiu do reconhecimento da existência de uma essência oculta e desconhecida das coisas, acessível apenas aos iniciados. Já o termo ESOTERISMO passou a ser aplicado pelos hierarcas cristãos a si mesmos: eles se consideravam esotéricos, e não sem razão — qual doutrina pode ser mais esotérica do que a doutrina da fé? — enquanto os demais, incluindo os reis, eram chamados de exotéricos. Não é à toa que até mesmo São Constantino, cuja memória, junto com a de sua mãe Helena, é celebrada pela Igreja Ortodoxa em 21 de maio (3 de junho), nos documentos do Concílio de Niceia (325) é chamado de o ‘episkopos twn exoterikwn — “Bispo dos Externos”.
O hermetismo, como doutrina e termo, sobreviveu até a virada do milênio anterior e atual, ou seja, até o Grande Cisma de 1054, quando o papa romano (Leão IX) e o patriarca de Constantinopla (Miguel Cerulário) se excomungaram mutuamente à distância. O século XI foi, em geral, um período de formação definitiva do dogma nas três religiões mundiais — judaísmo, cristianismo e islamismo.
As consequências disso foram muitas, mas para nós o mais importante é o seguinte. Se o dogma foi formulado, então também foi formulada a ideia do que não se relaciona com ele, a noção de dogma e não-dogma. Antes, o conhecimento, mesmo que básico, do hermetismo era considerado um sinal de erudição e cultura. Nas pessoas acreditavam ou não nos horóscopos, mas sabiam como fazê-los — disso, por exemplo, testemunha o brilhante escritor e cortesão bizantino Miguel Pselo (1018–1078), contemporâneo do Grande Cisma. Agora, esse conhecimento tornou-se pecaminoso, ruim (“pagão”, do latim paganus). O direito de conexão com o mundo invisível foi monopolizado pela Igreja, e todos os outros esotéricos se tornaram rivais, concorrentes, contra os quais não demorou a agir — começou a era das queimas de bruxas. O hermetismo, junto com todo o restante da herança antiga, foi declarado demoníaco e esquecido.
No entanto, ele ressurgiu muito em breve, também junto com toda a herança antiga, mas já sob outro nome: OCULTISMO.
A palavra OCULTISMO deriva do latim occultus, “oculto”, e designa a mesma doutrina sobre a existência de uma conexão oculta entre eventos e fenômenos, não compreendida nem pela teologia canônica nem pela ciência racional.
No século XII, o rabino Abraão ben David de Toledo reuniu textos antigos, acrescentou algo de próprio e apresentou ao mundo a primeira compilação do ensino da Cabala. No século XIII, o conde Bolstädt, também conhecido como Alberto Magno, renunciou ao cargo de bispo e tornou-se professor de ciências ocultas. No século XIV, Raimundo Lúlio criou sua Ars Magna — “A Grande Arte”, um livro de magia e alquimia. No século XV, o jovem conde Pico della Mirandola compreendeu que o mundo visível e o invisível são um só, e considerou a Cabala o melhor meio de conhecimento. No século XVI, um soldado chamado Henrique, por bravura, foi armado cavaleiro no campo de batalha com o nome de Cornélio Agripa, escreveu uma obra em três volumes sobre filosofia secreta — De occulta philosophia — e, na prática, tornou-se o fundador do esoterismo moderno (conhecemo-lo como Agripa). No século XVII, o jovem Benedito Espinoza… Espinoza, aliás, merece ser discutido em um curso de história da religião.
O desenvolvimento das ciências naturais nos séculos XVI-XVII (invenção do telescópio e do microscópio, binômio de Newton, sistema heliocêntrico) diminuiu o interesse pelo ocultismo, e logo veio a época do Iluminismo, cujos representantes começaram a expulsar da consciência de massa não apenas o diabo, mas também Deus, e, como é natural, jogando fora a água, também jogaram fora a criança — não uma, mas várias. Nós, entretanto, por enquanto, nos interessamos apenas por uma criança, ou seja, pelo ocultismo: ele foi esquecido por quase um século e meio. Refiro-me, aliás, apenas às camadas educadas; no povo, a fé em milagres nunca morreu.
A descoberta de Urano (1784) coincidiu com o início de um novo período na história do esoterismo. No final do século XVIII e, especialmente, no século XIX, o ocultismo renasceu com nova força graças às buscas filosóficas dos membros de inúmeras sociedades secretas (rosacruzes, iluminados, maçons), à necessidade prática de cientistas naturais, principalmente médicos (Mesmer, Gall, Hahnemann), e ao “descobrimento” pelos europeus de ensinamentos orientais e próprios antigos, reinterpretados em um novo nível teórico (quiromancia, espiritismo, teosofia).
Por meio de inúmeras tentativas e erros, os ocultistas buscavam um caminho para unir teorias antigas, em muitos aspectos ultrapassadas, com os dados da ciência moderna. Nesse processo, cada pequena sociedade desenvolvia sua própria linguagem conceitual. A diferença entre essas linguagens ainda se faz sentir hoje. O problema é que o ocultismo os impulsionava para a política. A visão esotérica do mundo é uma filosofia do homem livre de quaisquer preconceitos, e os iniciantes muitas vezes confundiam a libertação espiritual com a social. Basta lembrar as uniões russas dos decembristas, que surgiram com base em lojas maçônicas. Mas sobre os maçons falaremos em particular.
De qualquer forma, até o final do século XIX, o ocultismo havia se formado, em sua maioria, como uma visão de mundo integral e bastante fundamentada cientificamente. Ao longo de todo o século XIX, muito foi feito — em todas as áreas do desenvolvimento do ocultismo. Surgiram muitas novas disciplinas. No entanto, a era fin de siècle (“fim de século”) e as duas décadas seguintes de guerras e revoluções novamente embaralharam todas as cartas. Primeiro, o ocultismo tornou-se moda, depois, naturalmente, apareceram inúmeros charlatães e vigaristas, e o resultado foi que o ocultismo deixou de ser levado a sério. Começaram a caçoar dele. Até mesmo Jaroslav Hašek, em “As Aventuras do Bom Soldado Schweik”, criou o cozinheiro ocultista Jurajda. Para as pessoas educadas, tornou-se vergonhoso se interessar por ocultismo.
Nos anos 1920-1930, iniciou-se uma nova etapa — até hoje a última — no desenvolvimento do esoterismo. A palavra “ocultismo”, que havia se tornado pejorativa, foi esquecida, e novos nomes foram buscados.
A Sociedade Teosófica, fundada por Helena Blavatsky, recuperou-se dos golpes do destino. Na Suíça, o dr. Rudolf Steiner fundou o templo da antroposofia. Nos Estados Unidos, surgiu o Instituto de Parapsicologia; na Rússia, toda uma direção científica para pesquisar as capacidades humanas (Bekhterev). Na Alemanha nazista, tentaram usar astrólogos e videntes a serviço do regime. Na Inglaterra, sob o nome de “Estrela Prateada”, renasceu a ordem da “Estrela Dourada”, fundada no final do século XIX, e assim por diante.
Os governantes mais perspicazes começaram a perceber o valor da ciência esotérica. Todas as pesquisas que pudessem influenciar de alguma forma o equilíbrio de poder no mundo ou o prestígio do Estado passaram a ser subsidiadas — e mantidas em segredo. Até hoje, toda a esoterica, incluindo a igreja, ao longo de milênios, sobreviveu apenas com suas próprias receitas e doações privadas, mesmo que reais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, esse desenvolvimento desacelerou; muitos esotéricos morreram ou pereceram. Mas logo após a guerra, tudo se recuperou e avançou rapidamente. Surgiram inúmeras sociedades e organizações, centros de ensino, faculdades, editoras e lojas; começaram a ser publicadas cada vez mais livros novos e reedições de antigos. O surgimento dos computadores permitiu criar programas e bancos de dados especiais. Novas direções e disciplinas apareceram; novas abordagens foram encontradas para as velhas teorias. E, de alguma forma, a palavra “ESOTERISMO” se estabeleceu como um termo geral. Inicialmente, é claro, ela se espalhou no exterior, e após o colapso do socialismo — também entre nós.
Entre nós, aliás, o esoterismo floresceu em cores vivas, como no início do século. Mas isso passará, e já está passando.
No geral, apesar do reconhecimento óbvio, o esoterismo ainda ocupa uma posição marginal, como que na periferia da consciência social. O esoterismo como filosofia é conveniente, acima de tudo, porque ajuda a explicar e compreender muitas coisas, bem como a prever seu desenvolvimento. Ou seja, atende aos requisitos impostos a uma teoria (como se sabe, uma teoria deve não apenas explicar, mas também prever). Além disso, suas construções são belas, e a beleza é outro sinal de uma boa teoria. As disciplinas esotéricas aplicadas são ainda mais convenientes porque ajudam a encontrar soluções para muitos problemas práticos.
No entanto, a impressão milenar de “vergonha” ainda não desapareceu. E embora reis e presidentes, campeões esportivos e serviços secretos, sem mencionar as pessoas comuns, usem com sucesso os serviços de curandeiros e videntes, astrólogos e adivinhos, admitir isso publicamente não é aceitável. E o problema aqui não está tanto no sigilo, mas na posição da ciência acadêmica, que, imperceptivelmente, substituiu a igreja como guardiã das tradições.
Não é segredo que muitas áreas da ciência moderna estão passando por tempos não muito bons. Também não é segredo que muitos representantes dessa ciência estão mais interessados em seu próprio sucesso do que no alheio. Mas há também cientistas conscienciosos que continuam a desmascarar “esses preconceitos medievais” simplesmente porque seu primeiro contato com o esoterismo se deu por meio de literatura americana barata, um astrólogo mal formado ou um médico charlatão.
Mas isso não durará para sempre. Na história da humanidade, está chegando um novo ponto de virada, uma “encruzilhada”, e é muito possível que, para as pessoas do século XXIII, nós pareçamos tão alienígenas quanto os habitantes da antiga Suméria nos parecem hoje. Já no futuro próximo, no século XXI — ou seja, muito em breve —, as ciências esotéricas ocuparão seu lugar nos currículos das instituições de ensino, ao lado de todas as outras. Afinal, na realidade, ambas estão intimamente ligadas entre si. No entanto, a transição da antiga lógica para a nova, embora já tenha começado, levará séculos.
Essa previsão baseia-se em uma cronologia especial, aceita pelos astrólogos e, em geral, no esoterismo moderno. Você provavelmente já ouviu a expressão: “Está chegando a era de Aquário”. O que isso significa?
Começarei de longe. No século II d.C., o astrônomo Hiparco, que vivia na ilha de Rodes, descobriu o fenômeno da precessão, ou seja, o deslocamento do ponto do equinócio vernal.
O ponto do equinócio vernal é chamado de ponto de interseção do equador celeste com a eclíptica. O dia em que o Sol passa por esse ponto, movendo-se do hemisfério celeste sul para o norte, é chamado de dia do equinócio vernal, segundo o calendário moderno — 21 de março. A partir desse dia, em muitos calendários antigos, o ano começava, e hoje esse ponto serve como origem das coordenadas celestes.
Pois bem, Hiparco comparou suas observações com as tabelas astronômicas egípcias de vários séculos antes e descobriu que aquele ponto havia se deslocado. Ele calculou também a velocidade angular desse deslocamento: cerca de 50 segundos por ano. Isso significa que, para um observador terrestre, toda a faixa das constelações zodiacais se move gradualmente: se, na época de Hiparco, o Sol realmente nascia junto à constelação de Áries nesse dia, hoje, nesse mesmo dia, ele nasce junto à constelação de Peixes, embora sua posição em relação ao equador e à eclíptica não tenha mudado. E, nos próximos dois mil anos, nascerá junto à constelação de Aquário nesse dia.
É com base nisso, em particular, que os opositores da astrologia fundamentam seus argumentos:
— Os astrólogos afirmam que, de 21 de março a 21 de abril, o Sol está na constelação de Áries, mas, na realidade, ele só entra nela em 18 de abril!
É verdade, mas na astrologia não se leva em conta as constelações, e sim os signos do Zodíaco. As constelações têm extensões diferentes e realmente mudam de posição, enquanto os signos são setores convencionais do céu, cada um com 30 graus, medidos a partir do ponto vernal. Assim, esse ponto se move apenas em relação às constelações; os signos, por sua vez, acompanham esse movimento, pois seu início está vinculado a ele. Daqui a dez mil anos, no dia do equinócio vernal, o Sol nascerá junto à constelação de Libra, mas, para os astrólogos, as pessoas nascidas no mês seguinte a essa data ainda terão as “qualidades de Áries” — não da constelação de Áries, que, naturalmente, não possui qualidades, mas daquele arquétipo psicológico descrito na literatura como “o Carneiro”.
Com uma velocidade de 50 segundos de arco por ano, o ponto vernal leva cerca de dois mil anos para percorrer uma constelação (ou, para sermos precisos, um signo do Zodíaco verdadeiro). Durante o período aproximado do início da nossa era até hoje, ele esteve na constelação de Peixes. Antes disso, por cerca de dois mil anos, esteve em Áries, ou seja, desde aproximadamente a época das “grandes migrações dos povos” do século XX a.C. até o nascimento de Cristo. Duas mil anos antes, ele estava em Touro, e assim por diante. Em um futuro próximo, ele passará para a constelação de Aquário.
Segundo isso, a história da humanidade também se divide em períodos de cerca de dois mil anos cada: a história dos sumérios e do Egito até o fim do Império Médio — era de Touro e o touro como símbolo do poder divino e real, aproximadamente 4000–2000 a.C.; depois de um período de guerras e transformações que durou quatro ou cinco séculos, veio a era de Áries — Assíria e Babilônia, os hebreus com seu bode expiatório e os gregos com seu carneiro de ouro, séculos II e I a.C.; novamente um período de mudanças, a era helenística e as primeiras comunidades cristãs, mais três ou quatro séculos, e o início da era de Peixes — como você deve lembrar, o símbolo dos primeiros cristãos eram os peixes.
A era de Peixes deve ser sucedida pela era de Aquário, cuja transição já começou. Se não contarmos os primeiros precursores que apareceram ainda no século XIX, ela só começou de fato agora. Também levará três ou quatro séculos, por isso ainda é cedo para falar em um afastamento definitivo da era de Peixes antes do século XXIII. Sobre o significado de cada uma dessas eras falaremos mais tarde, e você mesmo pode consultar a literatura astrológica para saber o que representa o arquétipo de Touro, Áries, Peixes e Aquário.
É claro que essa divisão é convencional — assim como a divisão da história em “era da escravidão”, “era do feudalismo” e assim por diante. Também é evidente que nossa breve exposição diz respeito principalmente à cultura judaico-cristã, ou seja, basicamente à cultura europeia: em diferentes regiões da Terra, a mudança das eras ocorreu de maneiras distintas. Mas esses detalhes abordaremos mais tarde.
No geral, essa cronologia é conveniente para nós porque permite rastrear facilmente os principais estágios do desenvolvimento do pensamento esotérico e estruturá-los segundo a lógica do pensamento humano. Agora você entende o significado dos títulos da segunda e terceira aulas: “Culturas pré-Aquarianas” e “Era de Áries”. E, ao refletir sobre o que cada uma dessas eras significou para a autoconsciência da humanidade, poderemos visualizar com mais clareza as etapas de seu desenvolvimento.
Disciplinas esotéricas aplicadas
As ciências esotéricas desenvolveram-se da mesma forma que todas as outras, como a física ou a química. Se, inicialmente, elas eram estudadas em conjunto — um químico, naturalmente, também estudava alquimia; um astrônomo, astrologia, etc. —, depois os caminhos dessas ciências se separaram, de modo que hoje temos de lidar com inúmeras disciplinas especializadas. No entanto, as fronteiras entre elas são difusas, de modo que, em suas intersecções, novas disciplinas surgem constantemente, e a própria área das ciências esotéricas está intimamente ligada a outros campos do conhecimento humano, que poderiam ser agrupados sob o nome de ciências do homem.
São muitas essas ciências. Até uma lista alfabética delas, da antropologia à linguística, ocuparia tanto espaço quanto todo este artigo. Hoje, quem decide estudar uma dessas ciências é obrigado não só a “saber cada vez mais sobre cada vez menos” (especialização estreita), mas também a recorrer constantemente a “ciências vizinhas”. Assim, um psiquiatra muitas vezes precisa estudar sociologia, pedagogia e filosofia, e um astrólogo pode não dispensar a quiromancia, a grafologia ou o Tarô.
Para nos familiarizarmos melhor com as ciências esotéricas, dividiremos, por conveniência, em três grupos. Primeiro, as disciplinas que utilizam dados objetivos sobre o homem, ou seja, aqueles parâmetros que ele mesmo não pode alterar: data de nascimento, formato e linhas da mão, caligrafia etc. A essas disciplinas pertencem, sobretudo, a astrologia, a grafologia e a quirologia (quirosofia), além da datiloscopia, que, na verdade, é um ramo da quirologia.
A elas também se incluem a frenologia (determinação do caráter por meio das saliências do crânio), a fisiognomonia (mesmo método, mas pelas feições do rosto), além da numerologia — determinação do caráter e previsão do destino por meio do valor numérico das letras do nome e das cifras da data de nascimento.
A essas se juntam ainda as disciplinas neo-ocultas, que também utilizam dados objetivos: a criminalística, a paralinguística (estudo da mímica e da gesticulação) e muitos métodos diagnósticos — por exemplo, a iridologia, que determina o estado de saúde pela íris do olho. Por fim, caberia incluir aqui também a psiquiatria, cujas conclusões também se baseiam em manifestações objetivas da personalidade — reações, declarações etc., que são difíceis de simular.
O segundo grupo de ciências ocultas opera com dados subjetivos, ou seja, com o material que a pessoa mesma fornece. Trata-se, principalmente, de imagens do inconsciente, que a própria pessoa geralmente não consegue interpretar; o especialista atua aqui como um “decifrador”. A esse grupo pertencem todas as disciplinas manticas, ou seja, os diversos métodos de adivinhação.
Existem inúmeros métodos de adivinhação, desde o uso de cartas, varetas ou borra de café até práticas exóticas de povos antigos e silvícolas, que previam o destino pelo voo das aves, pelas rachaduras em carapaças de tartaruga ou pelo aspecto da fumaça que se eleva sobre o altar sacrificial. Na verdade, pode-se adivinhar em qualquer coisa, porque a resposta à pergunta já está contida no inconsciente de quem pergunta; caso contrário, a pergunta nem teria surgido. Os símbolos adivinhatórios servem apenas para tornar essa resposta compreensível.
A interpretação dos sonhos (oneirologia) também integra esse grupo, pois os sonhos pertencem ao mundo subjetivo, e não ao objetivo. Aqui também se inclui a numerologia cabalística, que estuda combinações aleatórias de letras e números.
Do ponto de vista das ciências neo-ocultas, as disciplinas manticas aproximam-se da psicologia, que também estuda os dados que o homem fornece a si mesmo, revelando algo e ocultando outra coisa. Os traços mais marcantes dessa abordagem psicológica estão expressos na psicanálise de Freud. É claro que a essa categoria pertencem também os testes psicológicos amplamente difundidos hoje.
E, por fim, o terceiro grupo das ciências ocultas — as ciências mágico-esotéricas, cuja principal finalidade não é o estudo do caráter humano nem a previsão do destino, mas sim a manipulação direta da realidade por meio de forças ocultas. A magia era praticada tanto por profissionais (sacerdotes, feiticeiros, xamãs) quanto por pessoas comuns. Os Três Reis Magos que, segundo o Evangelho, vieram adorar o Menino Jesus, não eram outros senão magos babilônios que haviam descoberto o nascimento do Salvador através da observação do céu.
Existem diversos tipos de magia, que se distinguem pelos objetivos e pelos métodos empregados. A magia profissional sempre foi dividida em magia branca (teurgia) e magia negra (feitiçaria, bruxaria). A diferença entre elas é mais ética do que técnica: enquanto a primeira busca reduzir o mal no mundo, a segunda tem como propósito exatamente o oposto.
A magia natural ou “popular” simplesmente constitui uma parte inseparável de nossa vida. “Qualquer ação intencional já é magia”, dizia Aleister Crowley, e ele tinha razão, pois a simples consciência humana de um propósito já provoca mudanças no mundo ao redor, facilitando a realização desse intento se ele não violar o equilíbrio cósmico, ou dificultando-a, caso contrário.
Para saber mais sobre as diversas disciplinas esotéricas e suas histórias, recomenda-se a leitura do livro de Alfred Lehmann, “História Ilustrada dos Preconceitos e da Feitiçaria” (Moscou, 1900, reimpresso em Kiev, 1993). A obra apresenta a história de forma crítica, para não dizer sarcástica, mas os fatos são expostos com precisão.
O Monstro. História das doutrinas esotéricas. Aula 2. Culturas pré-históricas
A história, como já disse, é escrita de forma retrospectiva. Quanto mais distante no tempo estiver o historiador em relação aos povos e eventos descritos, mais grandiosos e significativos esses povos e eventos parecem, e mais recuada se torna a origem da própria história. Assim, os caldeus (babilônios) afirmavam que seus conhecimentos esotéricos haviam sido acumulados ao longo de 500 mil anos; os egípcios reivindicavam mais de 600 mil anos; e os indianos chegavam a contar em milhões (afirmando que o primeiro manual de astrologia, o Surya Siddhanta, teria sido escrito em 2.163.102 a.C.).
A história do esoterismo pode ser considerada mais ou menos documentada a partir da mesma época do helenismo. Em nossa cronologia, trata-se do início ou véspera da Era de Peixes, entre os séculos VI e III a.C. Todo o resto são apenas hipóteses, por mais convincentes que pareçam. No entanto, como nosso interesse não se limita apenas à história do esoterismo em si, mas também às concepções que os próprios esotéricos tinham dela, gostaria de começar com uma hipótese ou teoria fascinante, que ganhou grande difusão. Trata-se da teoria das Sete Raças-Raiz — apresentada nas obras de Helena Blavatsky, Helena Roerich e outras estudiosas ocidentais do Oriente.
O número sete, a septenária, é um número sagrado em muitas civilizações terrestres. Para entender melhor do que se trata, lembremos que, segundo a concepção esotérica, o ser humano também é composto por sete corpos, cujo conjunto constitui sua essência. Às vezes, esses corpos são agrupados em “planos” ou “níveis” — físico, astral, mental.
Na China Antiga, eles correspondiam às “três almas” do homem: Gui e Hun. A primeira, a mais inferior (hebraico ruach, grego pneuma, latim anima, sânscrito prana), ia para a terra; a segunda (grego daimon/as: entidade imaterial, elemental) tornava-se o espírito de um ancestral, cultuado; e a terceira, a superior (latim spiritus, sânscrito atman), subia ao céu, onde se unia ao coro dos espíritos. Mais tarde, os taoistas também diferenciaram esses planos, mas acabaram chegando a sete subdivisões.
Em diferentes fontes, a quantidade e os nomes dos corpos variam — podem ser mais ou menos de sete, embora o sete seja predominante (e por quê veremos mais adiante). Os ocultistas mais recentes (como C.W. Leadbeater) subdividiam cada corpo em sete subplanos ou subníveis, chegando assim a quarenta e nove. Quem desejar pode consultar as obras de Leadbeater em traduções de A.V. Troianovski (“O Plano Astral”, São Petersburgo, 1908, reimpresso em Baku, 1990; “O Plano Mental”, São Petersburgo, 1912, reimpresso em Moscou, “KOKON”, 1991). Nós, porém, adotaremos a versão mais comum: corpo físico, corpo etérico, corpo astral, corpo mental (manas, razão inferior), corpo buddhi (razão abstrata) e, por fim, os dois últimos corpos — o corpo do intelecto espiritual e o corpo causal. Estes dois últimos formam a mônada.
MÔNADA (do grego monas, “unidade”): o elemento mais simples, a partícula indivisível do ser; no ocultismo, é a base da essência humana, que une o corpo causal e o corpo do intelecto espiritual. Conhecida desde a Antiguidade, na Idade Média a mônada era chamada de substância “radical” não apenas do homem, mas de todas as coisas complexas. A mônada é imortal e possibilita a reencarnação tanto no corpo masculino quanto no feminino. Segundo Leibniz, trata-se de um tipo de “átomo” espiritual, uma unidade de ser dotada da capacidade de percepção (percepção) e appercepção (ação ativa). Não existem duas mônadas iguais. Elas também podem ser de diferentes ordens: há mônadas inferiores (de minerais, plantas), mônadas superiores (de animais, humanos) e a mônada suprema (de Deus).
Passemos agora à teoria propriamente dita. Vamos formulá-la brevemente, sem nos alongar em detalhes.
Teoria das Sete Raças
A vida inteligente na Terra foi criada de forma intencional, ou seja, com um propósito premeditado, mas não por um Deus antropomórfico criador, como muitas religiões imaginaram em seus estágios iniciais, e sim por um complexo de forças superiores, para as quais não existem palavras na linguagem humana.
Essa ideia de um Criador intencional, que surgiu da concepção de um Deus criador, deu origem mais tarde a inúmeras teorias sobre a “panspermia” — a origem da vida na Terra a partir do espaço cósmico. Basta lembrar os filmes do paleofuturólogo alemão Erich von Däniken ou as obras de Stanisław Lem, um dos maiores filósofos contemporâneos.
As primeiras mônadas foram criadas simultaneamente ao surgimento da Terra. No entanto, elas eram compostas apenas de corpos sutis, ou seja, para nós seriam invisíveis. Além disso, não possuíam razão. Eram a Primeira Raça.
Com o tempo, todas as mônadas primárias se desintegraram, e de seus elementos formou-se a Segunda Raça. Eram mônadas semelhantes às primeiras, mas haviam desenvolvido um novo método de reprodução, que pode ser descrito como “liberação de um ovo”. Gradualmente, esse método tornou-se dominante.
Assim surgiu a Terceira Raça — a Raça dos Ovo-nascidos. No início, eles também não tinham um corpo físico denso, o que era até benéfico, pois as condições geológicas da Terra naquela época não eram propícias à existência de corpos protéicos.
A Terceira Raça evoluiu mais rapidamente: surgiu no início da Era Arqueozoica, época do aparecimento dos primeiros organismos vivos, e, algum tempo depois, ocorreu a divisão dos sexos nas mônadas e o surgimento dos rudimentos da razão. O mundo animal e vegetal da Terra também se desenvolveu gradualmente, mas nós não estamos analisando sua evolução, e sim apenas a evolução das proto-mônadas do HOMEM.
Cada uma dessas raças se dividia em sete sub-raças, cada uma com suas próprias características. As primeiras três sub-raças da Terceira Raça gradualmente desenvolveram uma casca densa — para nós, seriam parcialmente visíveis, “semipalidamente” — até que, na quarta sub-raça da Terceira Raça, finalmente apareceram os primeiros HOMENS com um corpo físico verdadeiro. Isso ocorreu ainda na época dos dinossauros, ou seja, cerca de 120 milhões de anos antes de nossa era. Os dinossauros eram gigantes, e os humanos também eram gigantes, chegando a medir 18 metros ou mais de altura. Nas sub-raças seguintes, sua estatura foi diminuindo gradualmente. A prova disso seriam os ossos fossilizados de gigantes e os mitos sobre gigantes (como Golias, entre os hebreus, ou Pélops, entre os gregos).
No entanto, o primeiro homem ainda não possuía o conjunto completo de corpos que temos hoje. Eles não tinham alma consciente, ou seja, o corpo do intelecto espiritual (segundo outras versões da mesma teoria, eles não tinham manas, ou seja, a consciência moral). Por isso, comportavam-se como animais, donde surgiu o mito da Queda do Homem e a brilhante teoria paralela sobre os pacíficos neandertais, que não teriam caído em pecado e foram exterminados pelos humanos guerreiros (o mesmo Stanisław Lem). Desses homens-animais teriam surgido os primatas superiores (macacos) — não o contrário, como aprendemos na escola (os humanos não descendem dos macacos, mas os macacos descendem dos humanos).
Depois disso, segundo uma versão, as forças criadoras supremas que haviam chamado à vida, na Terra, seres inteligentes, intervieram mais uma vez e implantaram na consciência humana a “Centelha Divina” — nem todos, claro, mas pelo menos alguns. Segundo outra versão, ela teria surgido espontaneamente em indivíduos específicos, que se tornaram os Mestres das gerações seguintes.
Os últimos subgrupos da Terceira Raça criaram a primeira civilização no continente primordial da Lemúria, ou, segundo outras versões, Gondwana. Esse continente localizava-se no Hemisfério Sul e incluía a extremidade sul da África, a Austrália com a Nova Zelândia, e, ao norte, Madagascar e Ceilão. Um bom mapa da Lemúria foi publicado no livro: Westwood, Jennifer. The Atlas of Mysterious Places. Weidenfeld & Nicolson, Nova York, 1987. À cultura lemuriana também pertencia a Ilha de Páscoa.
No período da sétima sub-raça da Terceira Raça, a civilização dos lemurianos entrou em declínio e, por fim, o próprio continente afundou. Isso ocorreu no final do Período Terciário, ou seja, cerca de 3 milhões de anos antes da nossa era.
A Terceira Raça também é chamada de Raça Negra. Seus descendentes são considerados os povos de pele negra, as tribos africanas e australianas.
Naquela época, já havia surgido a Quarta Raça — a Raça dos Atlantes, é claro, no continente conhecido como Atlântida. “Sua extremidade norte se estendia por vários graus a leste da Islândia, incluindo a Escócia, a Irlanda e a parte norte da Inglaterra, enquanto a extremidade sul chegava até onde hoje se localiza o Rio de Janeiro.” (Stulgienskis, ver abaixo).
Os atlantes eram descendentes dos lemurianos que haviam migrado para outro continente aproximadamente um milhão de anos antes da destruição da Lemúria. As duas primeiras sub-raças da Quarta Raça descendiam desses “primeiros colonizadores”. A terceira sub-raça surgiu após a destruição da Lemúria ou Gondwana: eram os toltecas, a Raça Vermelha, que veio do Ocidente.
Os atlantes adoravam o Sol, e sua estatura também era acima da média — dois metros e meio. De fato, a cada nova raça, a estatura média dos habitantes da Terra diminuía gradualmente. A capital de seu império era a cidade das Cem Portas Douradas. Seu auge civilizatório foi alcançado justamente no período dos toltecas ou da Raça Vermelha, há cerca de 1 milhão de anos.
Mas esse florescimento não durou muito: a atividade geológica da Terra continuou. A primeira catástrofe, ocorrida cerca de 800 mil anos atrás, interrompeu a conexão terrestre da Atlântida com as futuras Américas e Europa. A segunda, cerca de 200 mil anos atrás, fragmentou o continente em várias ilhas, grandes e pequenas, dando origem aos continentes modernos. Após a terceira catástrofe, por volta de 80 mil anos antes da nossa era, restou apenas a ilha de Poseidonis, que afundou por volta de 10 mil anos antes da era comum. Sua destruição foi muito convincentemente descrita no romance de A. Beliaev “O Último Homem da Atlântida”.
Os atlantes previam essas catástrofes e tomavam medidas para salvar seus sábios e o conhecimento por eles acumulado. Acredita-se que foram eles que construíram os gigantescos templos no Egito e fundaram ali as primeiras escolas de esotéricos. Os esotéricos já existiam entre os lemurianos; a filosofia esotérica, por assim dizer, era sua filosofia de Estado e sua visão de mundo habitual. Em tempos de ameaça de destruição dos continentes, eram os iniciados superiores que eram salvos em primeiro lugar, graças aos quais os conhecimentos ancestrais sobreviveram por séculos e milênios.
Nesse contexto, surge outra teoria interessante — sobre a construção, pelos atlantes ou até mesmo pelos lemurianos, de naves espaciais e o resgate dos iniciados superiores no planeta Marte. Tanto quanto sei, ela foi apresentada pela primeira vez pelo inglês Frederick Spencer Oliver (pseudônimo Phylos the Tibetan) no romance “Um Habitante de Dois Mundos”, publicado em 1894 (Philon the Tibetan. A Dweller on Two Planets).
Nós a conhecemos graças a Alexei Tolstói, que, em sua juventude, era fascinado pelo ocultismo. Aliás, quem desejar saber mais sobre as primeiras raças pode reler seu romance “Aelita”, onde tudo o que foi dito acima é exposto de forma inteligente e detalhada (“O Segundo Relato de Aelita”).
As catástrofes da Atlântida provocaram novas ondas de migração, durante as quais não apenas os iniciados, mas também pessoas comuns (“exotéricos”) fugiram do continente. Assim surgiram as seguintes sub-raças da Quarta Raça: hunos (quarta sub-raça), proto-semitas (quinta), sumérios (sexta) e asiáticos (sétima). Os asiáticos, que se misturaram aos hunos, às vezes também são chamados de Raça Amarela, enquanto os proto-semitas e seus descendentes, que formaram a Quinta Raça, são chamados de Raça Branca.
Nós somos a Quinta Raça. Ela também se divide em sete sub-raças, das quais apenas cinco já existem.
A Quinta, ou Raça Ariana: indianos (tribos de pele clara), [2] semitas mais jovens (assírios, árabes), [3] iranianos, [4] celtas (gregos, romanos e seus descendentes), [5] teutônicos (germânicos e eslavos).
Naturalmente, depois virão a Sexta e a Sétima Raças-raiz. Mas sobre como elas serão ou deverão ser falaremos mais tarde; por enquanto, voltemos à história.
Em geral, quem se interessar por mais detalhes pode consultar o livro de S. A. Stulgienskis “Lendas Cósmicas do Oriente”, já publicado em várias edições, por exemplo: Moscou, “Sfera”, 1991, ou o livro de Édouard Schuré “Os Grandes Iniciados”, também reeditado entre nós (Kaluga, 1914, reimpressão Moscou, 1990).
Assim, dos atlantes, o bastão do conhecimento esotérico passou para os egípcios. Aliás, os europeus por muito tempo consideraram os egípcios os criadores de todo o conhecimento esotérico, acreditando que não havia ninguém na Terra antes deles; a teoria das raças-raiz, exposta acima, só se formou no final do século XIX. Foi então que o quase esquecido mito da Atlântida ganhou novo fôlego, e, é claro, as concepções indianas dos ciclos históricos mundiais (kaly-yuga), que duram centenas de milhares de anos, também contribuíram para isso.
Tanto mais que, no início da Era de Touro, ou seja, no IV milênio antes da nossa era, começaram a se formar culturas não apenas na Índia e no Egito, mas também na Suméria, China e México. Embora tenham se desenvolvido de forma independente, muitas coisas as unem. Mas o que é, afinal, a Era de Touro?
Era de Touro
O pensamento humano nesse período era mitológico: o mito revelava-se o melhor meio de compreender e memorizar as relações entre os fenômenos. Nós, por exemplo, dizemos que os eclipses solar e lunar ocorrem quando, do ponto de vista de um observador terrestre, ambos os astros estão próximos dos nodos de suas órbitas, cuja diferença em latitude é pequena. Os antigos diziam: “O Dragão devora a Lua (ou o Sol)”, e isso significava a mesma coisa para eles. Lembram-se de Mitya, o pequeno, em Alexei Tolstói?
Ele falava muito, muito bem. Mas só chamava o cavalo de “vevit”, o cachorro de “avava”, e o urso de pelúcia de “patapum”. Assim, Mitya entendia melhor, e o cavalo, o cachorro e o urso também entendiam melhor.
Aqui, o velho ocultista Alexei Tolstói, aliás, toca em um importante problema esotérico que os censores analfabetos dos anos 1930, felizmente, não perceberam. Sabe-se que o embrião e, depois, a criança, de certa forma, repetem a história do desenvolvimento dos organismos superiores: a transição do ambiente aquático para o aéreo (as brânquias se transformam em pulmões), a passagem gradual das formas inferiores de percepção para as superiores, a aquisição da razão. Os ocultistas, porém, acreditavam que o embrião e a criança também repetem as etapas do desenvolvimento espiritual das sete raças mencionadas: uma criança pequena, que ainda não fala, se comunica com o mundo ao seu redor de forma telepática, e depois essa capacidade se perde.
Lembram-se da “História dos Gêmeos” no livro de Pamela L. Travers sobre Mary Poppins? (Moscou, 1972). “Você quer dizer que eles entendiam os estorninhos e o vento, e… — E as árvores, e a linguagem dos raios solares e das estrelas — sim, sim, sim — disse Mary Poppins. /…/ Não adianta. Não há pessoa que se lembre disso depois de completar um ano.” — É, claro, uma descrição muito figurativa e simplificada do problema, mas não há dúvida de que Pamela Travers conhecia essa teoria: no Ocidente, os fundamentos do esoterismo estão acessíveis a todos e fazem parte do “substrato cultural”, como dizem os alemães — o patrimônio cultural herdado.
Esta teoria não surgiu do nada. Vocês mesmos, é claro, não se lembram, mas se alguém já viveu perto de uma criança pequena, pôde constatar que, entre a criança e a mãe, existe por muito tempo — até cerca de sete anos (!) — uma ligação invisível muito estreita, um campo comum: elas formam um sistema único, como a Terra e a Lua. A criança chora quando a mãe se afasta, a mãe adoece — a criança também adoece, e vice-versa, e assim por diante.
Ela também era conhecida pelas pessoas da antiguidade, embora, é claro, lhes dessem explicações mais primitivas. Existe uma antiga lenda sobre um rei que decidiu descobrir qual foi a primeira língua a surgir na Terra. Ele reuniu várias dezenas de bebês de diferentes nacionalidades e proibiu as babás de lhes falarem, esperando que eles mesmos começassem a falar. E eles começaram a falar… em hebraico antigo. (Pelo final da lenda, parece que ela foi composta por rabinos da virada de nossa era).
Assim, para explicar as regularidades do mundo visível e invisível, o homem da era de Touro recorria a lendas e mitos. Os mitos surgiram como descrições de fenômenos observados na linguagem da época. Por isso, não foram os planetas que receberam os nomes dos deuses, como por muito tempo se acreditou, mas sim o contrário: as imagens de deuses e heróis surgiram como reflexo de fenômenos terrestres e celestes. Durante o período da era de Touro, também são criados os grandes (gerais) mitos cosmogônicos.
Na base dos mitos cosmogônicos desse período está a ideia de um caos primordial, do qual surgem o céu, a terra e outras coisas. Eles surgem pela divisão dos elementos unidos no ovo cósmico (Egito, Índia) ou no oceano cósmico (Suméria). Talvez o motivo da divisão dessa “unidade não fundida” remonte à era de Gêmeos — Não é à toa que o tema dos gêmeos aparece em muitas mitologias (Gilgamésh e Enkidu entre os sumérios, Yama e Yami entre os indianos, os Gêmeos Celestes e Terrestres entre os índios da antiga México e, finalmente, os posteriores Dioscuros, Castor e Pólux).
Em vez de um único Deus-Criador, há todo um coro de deuses de diferentes patentes, cuja hierarquia está constantemente mudando. As próprias genealogias humanas remontavam ao primeiro casal humano, seja criado pelos deuses a partir do barro (Suméria, Egito), seja simplesmente nascido deles em matrimônio (Índia, México).
No entanto, o mundo, uma vez criado, era cíclico para as pessoas daquela época: tudo na natureza se repete. O mundo é como era desde o início dos tempos e será assim até o fim. Nenhuma mudança é apenas impossível, ela simplesmente não é necessária. “E Deus viu que era bom” — uma frase de uma fonte posterior, mas nela ecoa a ideia da “fechadura espaço-temporal do mundo”, como escreve Vladimir Romanovich Arsenyev (Animais — Deuses — Homens. M., 1991).
Por isso, aliás, as culturas “taurinas” não tinham medo da morte: para elas, a morte não é o desaparecimento total, não é o afastamento para sempre, mas apenas o término de um ciclo, após o qual segue outro ciclo em outro lugar, em outra vida, e um novo ciclo na Terra, desta vez externamente como descendente. Daqui vem a formação das ideias sobre reencarnação (novas encarnações da alma) e mitos sobre deuses que morrem e ressuscitam.
Traços da consciência mítica, aliás, também se preservaram no esoterismo moderno. Ao querer caracterizar algum fenômeno, dizemos “Vênus”, porque é mais curto. No entanto, essa palavra há muito perdeu qualquer ligação com a “Estrela da Manhã” e até com os deuses a ela consagrados do mundo antigo: para nós, é um arquétipo dinâmico, um complexo sintomático e simbólico, um sistema de associações que muda lenta, mas incessantemente, embora mantenha alguma base, uma ” mônada”.
Sim, Vênus é, acima de tudo, um símbolo da arte e do amor. Ela está ligada a Touro por afinidade de caráter, por isso Touro é considerado o “domicílio” ou “exaltação” de Vênus. Mas Touro é também o lugar de exaltação da Lua, e a Lua é um símbolo de fertilidade, sabedoria (duas chifres) e sensibilidade a vibrações sutis, “fluidos”.
No entanto, Touro tem suas próprias características. Antes de tudo, ele representa um dos quatro elementos, a terra, e as peculiaridades dos arquétipos da Lua e de Vênus são modificadas de acordo com isso: a sensibilidade lunar a vibrações sutis enfraquece (na era de Touro não ocorrem novas descobertas no mundo invisível, as pessoas confiam não na intuição, mas na autoridade dos “altos iniciados”), enquanto a capacidade de fertilidade se fortalece (a agricultura como a ocupação mais comum nas sociedades da era de Touro).
Nesse período, surgem cultos de fertilidade baseados no princípio feminino, não no masculino (Touro é um signo “feminino”). Nesse caso, o amor (sexo) e a fertilidade (maternidade) ainda não são diferenciados: Ísis egípcia, Inana suméria, até mesmo a posterior Istar babilônica e Anait armênia combinam em si elementos dos arquétipos da Lua e de Vênus ou são simplesmente consideradas deusas lunares.
“Grande Mãe” dos povos mediterrânicos, também conhecida como Sorny-Ekva (“Vovó Dourada”) entre os mansi e voguls, também como a olmeca Chak Kit, também como a famosa Cibele — um arquétipo lunar-terrestre não diferenciado (sistema mãe-criança), símbolo da unidade ainda não distinguível entre a fertilidade de seres racionais e irracionais.
Além disso, Touro acumula e armazena — reservas de alimentos, valores materiais, terras, conhecimentos, obras de arte. As sociedades “taurinas” são autossuficientes, não lhes interessa a vida de povos estrangeiros. Não é à toa que os habitantes de tais sociedades se chamam com mais frequência de “pessoas”, e os estrangeiros de “estranhos”, “forasteiros” ou, como mais tarde os gregos, de “mudos” (bárbaros).
Ao mesmo tempo, Touro é o patrono da arte, conhecedor, e muitas vezes até autor de suas obras. Durante a era de Touro, desenvolve-se (formaliza-se) a principal paleta de cores e simbologia cromática. São criadas obras de arte que muitas vezes sobrevivem por milênios: estátuas de pedra pintadas, templos e tumbas, vasos e adornos. Mas Vênus em Touro é uma executora, não uma criadora, e mais uma vez os padrões escolhidos se repetem de século em século.
Touro não é teórico, é prático: não faz generalizações, mas simplesmente acumula cada vez mais informações, enriquecendo as estatísticas que serão usadas pelas pessoas da próxima era. Suas ciências têm caráter aplicado: geometria, astronomia, medicina servem apenas para organizar a vida cotidiana, a “organização do trabalho”, como diríamos hoje.
Além disso, elas são complexas: a geometria não é separada da geomanzia, a astronomia da astrologia, a medicina da magia. Elas não são divididas nem na consciência das pessoas que as praticam, que geralmente são sacerdotes, a “casta dos iniciados”. E o motivo disso não é tanto o caráter secreto desses conhecimentos, mas a necessidade de garantir sua preservação e continuidade: ainda não existe escrita.
Daqui vêm as personificações masculinas dos deuses lunares: Thoth entre os egípcios, Nanna entre os sumérios, Chandra entre os indianos como inventores da doutrina e da escrita, patronos da magia e da medicina. No início da era de Touro, os deuses e deusas lunares ocupavam os primeiros e mais importantes lugares nos panteões (também porque a Lua é a base dos calendários mais antigos).
Touro é conservador e fiel às tradições. Durante a era de Touro, as operações puramente científicas adquirem caráter ritualístico, são fixadas em hinos e mitos para melhor memorização. Nesse mesmo período, no final da era de Touro, são desenvolvidos os primeiros sistemas de escrita — novamente para fixar o conhecimento acumulado.
Os rituais, por sua vez, baseiam-se no sentimento (pois Touro é, acima de tudo, sentimento, não uma conclusão lógica). Imagine uma cerimônia de iniciação de um sacerdote. Um jovem chega ao templo. Lavam-no, vestem-no com roupas rituais, recitam orações ou encantamentos. Ele é conduzido por um corredor escuro, decorado com imagens dos deuses mais terríveis do além. Ele passa por provas de dor, fica longos períodos sozinho, sem comida nem bebida. Se ele aguenta tudo isso, é levado a fazer um juramento de lealdade, e agora ele se torna guardião das antigas tradições. Que gama de sentimentos ele deve ter experimentado!
Quem desejar saber mais detalhes sobre tais rituais pode recorrer ao excelente filme de Jerzy Kawalerowicz “Faraó”, baseado no romance de Bolesław Prus, ou à novela do mesmo Édouard Schuré “A Sacerdotisa de Ísis” (São Petersburgo, 1993). Há também o magnífico romance “A Filha de Montezuma”, de Rider Haggard. Não se deve pensar que os autores dessas obras simplesmente fantasiavam sobre o tema ou reelaboravam fontes acessíveis: tais livros não são escritos por pessoas comuns, mas, em regra, por aqueles que possuem uma rica memória ancestral, genética ou cármica — chame como quiser. Afinal, J. R. R. Tolkien também não foi um criador de novas histórias, mas um inspirado reanimador dos antigos mitos celtas.
Assim, a era de Touro representa a fundação do “alicerce” dos principais mitos cosmogônicos, a máxima ritualização das ações e o acúmulo de estatísticas. O mundo para os habitantes da era de Touro é uno e indivisível, e os habitantes do mundo invisível são tão reais quanto os do mundo visível, do outro lado. Para se comunicar com ambos existem regras próprias, e, se forem seguidas com exatidão, pode-se alcançar o resultado desejado. Há pessoas que conhecem essas regras (os sacerdotes) e há aquelas obrigadas a recorrer a eles em busca de ajuda, pagando por isso. O mundo é bem estruturado e lógico, e não há motivo para mudá-lo.
Essa visão de mundo é simples e conveniente. Não é de se estranhar que muitas culturas tradicionais ainda hoje preservem traços de “tourianidade” — em primeiro lugar, a Índia e a China, embora, é claro, não se refira ao país como um todo, mas apenas a alguns grupos confessionais ou étnicos. Em segundo lugar, alguns povos africanos — como os beninenses, os ashanti e outros. Mas a maioria das culturas avançou e transitou para a era de Áries, que marcou uma nova fase no desenvolvimento da consciência humana, tanto coletiva quanto individual.
Para concluir, pode-se dizer que a cronologia por nós escolhida permite organizar muitos aspectos da história humana que não se submetem à sistematização por meio de outros calendários e cronologias. No entanto, a cronologia da precessão não é a única forma de divisão esotérica da história. Existem divisões maiores e menores, por exemplo, ciclos de quinhentos anos, com os quais ainda teremos de lidar. A cronologia da precessão permite analisar com relativa precisão um período de dez mil anos para mais ou para menos, a partir de hoje, e isso já é suficiente para o nosso caso.
Eras antigas
Outra ilustração da eficácia da cronologia da precessão pode ser a antiga tradição de atribuir a certos arquétipos planetários determinados metais ou, em sentido mais amplo, elementos da Tabela Periódica de Mendeleev. Como é sabido, o metal de Vênus — e, consequentemente, de Touro — é o cobre. O IV milênio a.C. marca o início da Idade do Cobre e do Bronze. O metal de Marte — e, por extensão, de Áries — é o ferro: o início da era de Áries (II milênio a.C.) coincide com o início da Idade do Ferro.
De acordo com isso, a era anterior, de Gêmeos, regida por Mercúrio (VI–V milênio a.C.), deveria corresponder ao mercúrio. No entanto, o mercúrio não pode ser usado para fabricar joias nem armas. O que fazer então? A alquimia oferece a resposta: “o mercúrio é a mãe da pedra”, acreditavam os antigos. “O pai” da pedra, aliás, era o enxofre. E o que resulta da combinação de mercúrio e enxofre? O cinábrio, um mineral de cor vermelha, um pigmento vermelho muito útil para pintar nas paredes das cavernas e aplicar no rosto e no peito como “pintura de guerra”, e mais tarde como uma das substâncias mágicas mais importantes nos experimentos alquímicos.
A era de Gêmeos corresponde ao fim da Idade da Pedra, ao sistema tribal e ao culto aos ancestrais e espíritos da natureza: montanhas, água, florestas. Nesse período predominava o pensamento lógico: as pessoas tentavam compreender as causas dos eventos por meio do raciocínio. É claro que elas sentiam a presença do mundo invisível, mas seu conhecimento era limitado. Por isso, surgiam mitos cosmogônicos menores (locais), diferentes para cada tribo, embora com estrutura semelhante.
Uma mitologia semelhante é descrita por Daniel Defoe no diálogo entre Robinson Crusoé e Sexta-Feira. Robinson perguntou a Sexta-Feira: “Quem fez o mar e a terra por onde andamos, quem fez as montanhas e as florestas?” Ele respondeu: “Um velho chamado Benamuckee, que vive muito, muito alto”. Robinson não conseguiu obter mais informações sobre essa figura importante além de que ele era muito velho, muito mais velho do que o mar e a terra, mais velho do que a lua e as estrelas”.
Nosso espaço judaico-cristão não preservou mitos semelhantes, mas eles ainda existem em culturas em desaparecimento, perdidas na periferia das civilizações tecnológicas modernas, desde os aborígines da Austrália até a tribo ianomâmi, recentemente descoberta por Vitaly Sundakov nas profundezas da Amazônia (ver, por exemplo, o suplemento de sábado do “Komsomolskaya Pravda” de 22 de julho de 1994).
Esses mitos geralmente incluem um Deus Criador — lembre-se do “Senhor da Vida” de Hiawatha em “A Canção de Hiawatha” ou do “Criador da Vida” de Kiangnaq nas lendas dos esquimós asiáticos, mas isso não é monoteísmo posterior, e sim uma representação personificada e primitiva do princípio de tudo o que existe.
As pessoas das culturas de Gêmeos traçam sua própria genealogia diretamente até esse Deus Criador ou, no máximo, até os animais por ele criados: o povo do Clã do Coelho, o povo do Clã do Cisne… Não havia sacerdotes entre eles, mas havia xamãs, embora seu papel fosse limitado, pois qualquer pessoa podia entrar em contato com o mundo invisível. (Como vemos, o xamanismo é um fenômeno bastante antigo.) Qualquer caçador podia desenhar com cinábrio em casca de bétula ou na parede da caverna a imagem de um búfalo e pedir que se tornasse sua presa. Qualquer um podia desenhar a imagem de um inimigo e perfurá-la com uma flecha, ou moldar com argila a figura de uma amada e untá-la com gordura para invocar seu afeto. Era natural. Pode-se dizer que naquela época não existia o “esoterismo” como doutrina para um círculo restrito: na prática, todos eram esotéricos, e o xamã era “escolhido” apenas no sentido de que era eleito para o cargo oficial de executor de rituais, sendo liberado de outras tarefas. Na verdade, a história das doutrinas esotéricas não é tão longa assim.
Na era de Touro, tal “atividade amadora” já era proibida, e não havia mais ninguém de quem se pudesse aprender como realizar rituais mágicos complexos, a não ser os sacerdotes, que reservavam essa prerrogativa para si mesmos.
As eras ainda mais antigas, a de Câncer e a de Leão, combinam-se bastante bem com a ideia da Idade de Prata e da Idade de Ouro, pois o metal de Câncer é a prata e o de Leão é o ouro. No entanto, não se deve entender isso literalmente: as pessoas dos séculos X–VI a.C. não comiam em pratos de ouro ou prata, e suas vidas estavam longe de ser tão despreocupadas como os antigos gregos imaginavam muito depois. Leão e Câncer, nesse contexto, representam apenas o tipo dominante de autoconsciência — “identidade”, como gostam de dizer no Ocidente. Câncer simboliza a formação da família, ainda que polígama, a criação de um “lar” próprio e a aquisição de ancestrais, enquanto Leão representa a realização do direito do mais forte, o direito à escolha do parceiro, que deve ser reforçado em um duelo com outro pretendente.
É possível também que Câncer, como símbolo do princípio feminino e do matriarcado, tenha gerado a imagem da Senhora dos Animais, que chegou até nós na forma de Potnia Theron dos mitos micênicos das ilhas gregas (era de Touro). Assim como traços hereditários são transmitidos através das gerações, de avô para neto, um signo “feminino” (Touro, IV–II milênio a.C.) pode ter reavivado o mito de outro signo “feminino” (Câncer, VIII–VI milênio a.C.).
As concepções esotéricas nessas eras eram ainda mais primitivas: Câncer, outro signo feminino, não apenas representava o matriarcado, mas também o politeísmo — cada pedra, cada passo e cada ação tinha seu próprio espírito, que não podia ser controlado, apenas apaziguado; Leão, o signo masculino, não representava tanto o patriarcado, ou melhor, a ausência de laços matrimoniais e familiares estáveis, a convivência de solteiros, mas a plena identificação com as forças do mundo invisível: o homem é mortal e imortal ao mesmo tempo. Ele invoca o nome de um deus ou espírito imortal e, acreditando que este lhe concedeu seu poder, realiza feitos que considera impossíveis em seu “estado mortal”.
Hoje em dia, quase não restam culturas desse tipo. Sobre as que ainda existem, falaremos mais se houver tempo. Na próxima aula, teremos de passar para a era de Áries.
Antigo Egito
Se tivermos tempo, podemos ainda conversar um pouco mais sobre o Antigo Egito, pois depois não retornaremos a ele.
A história do Antigo Egito, como já foi dito, se encaixa muito bem nos limites da era de Touro. Até meados do IV milênio a.C., formaram-se os reinos do Norte e do Sul. No início do III milênio a.C., começou a construção das pirâmides. As pirâmides e os templos são considerados as evidências mais importantes do alto nível de conhecimento dos egípcios.
Existem inúmeras teorias sobre o que são as pirâmides. No início deste século, o cientista alemão Netling descobriu uma correspondência entre algumas medidas da pirâmide de Quéops e as distâncias no Sistema Solar. Com base nisso, ele supôs que os egípcios conheciam os planetas trans-saturninos, ou seja, Urano, Netuno e Plutão, descobertos apenas nos últimos duzentos anos. Além disso, segundo ele, a pirâmide previa a existência de mais um planeta entre as órbitas de Saturno e Urano. Em 1977, já após a morte de Netling, foi descoberto exatamente ali o planetoide Quíron — de fato um planeta, mas muito pequeno. Netling também fazia outras suposições astronômicas semelhantes, mas elas ainda não receberam confirmação.
Nos dias de hoje, em vários países, trabalha-se ativamente com as medidas das pirâmides, especialmente a de Quéops. São feitas pequenas maquetes de pirâmides de madeira, metal e outros materiais, geralmente abertas (estruturas) em vez de fechadas. Plantas nelas crescem mais rápido, lâminas de barbear ficam mais afiadas, e uma pessoa, sentada dentro da pirâmide, adquire habilidades paranormais. (Para saber mais sobre pirâmides, pode-se consultar, por exemplo, os livros: Catalina, Cellar. Arquitetura do país dos faraós. M., “Budvydav”, 1990; e Toth, Max; Nielsen, Greg. Pyramid Power. Freiburg, 1988.)
Isso tem uma explicação: a base da forma da pirâmide é o quadrado e o triângulo, o quatro e o três — dois símbolos que representam dois princípios opostos, semelhantes ao yang e ao yin. Somados, o três e o quatro resultam no sete. Qualquer cosmogonia antiga é quaternária na horizontal (norte, leste, sul, oeste) e ternária na vertical (céu, terra, mundo subterrâneo). E se lembrarmos que as pirâmides eram dedicadas ao culto do Sol, fica claro que, quer os construtores quisessem ou não, nelas foram registradas as principais leis que regem nosso Sistema Solar…
Explico. Os números de um a dez são simples, correspondem aos planetas. O três representa os três planetas mais próximos do Sol: Mercúrio, Vênus e Terra (ou, segundo a hipótese do próprio Netling, Pré-Mercúrio, Mercúrio e Vênus). O quatro representa os outros quatro conhecidos pelos antigos: Lua, Marte, Júpiter e Saturno. A Lua não é apenas um satélite da Terra; nas teorias esotéricas, ela ocupa um lugar muito importante, portanto merece plenamente o status de planeta. Mais um trio (os trans-saturninos) completa a dezena. Hoje acredita-se que os antigos, embora não pudessem observar os planetas trans-saturninos, previam sua existência. E a dezena é o símbolo do Sistema Solar. É um número de ordem superior. Consequentemente, as centenas e milhares simbolizam estrelas, galáxias, metagaláxias e assim por diante.
Ao abordar a história de forma objetiva, é difícil supor que os egípcios realmente compreendessem, como nós, todas essas complexas inter-relações. No entanto, eles observavam e memorizavam. Não inventavam nada, apenas registravam as leis do mundo ao seu redor. Não é de surpreender que as anotações dos egípcios tenham se mostrado precisas: nosso mundo é uno, tanto no macro quanto no micro. Isso também foi afirmado por Hermes Trismegisto, um gênio cientista que viveu três mil anos antes de nossa era em Khmum. (Aliás, essa palavra significa “oito” — comparar com o hebraico “shmune”, ou seja, quatro pares dos primeiros deuses, homens e mulheres.) O sistema decimal não surgiu porque o homem tem dez dedos, mas porque o próprio Sistema Solar é decimal. E eles não poderiam construir suas pirâmides de outra forma: tudo o que o homem faz inevitavelmente se baseia nas leis universais do Universo.
O Monstro. História dos ensinamentos esotéricos. Aula 3. Era de Áries
A Era de Áries começou com mais uma grande migração de povos.
De modo geral, as migrações claramente contribuíram para o progresso da consciência humana, ou seja, para a eliminação de resquícios da consciência das velhas eras e o desenvolvimento de novas. Onde não houve esse movimento, traços do passado podiam se preservar por milênios. A transição de uma era para outra, como já foi dito, leva séculos, e diferentes tribos partiam em jornada em momentos distintos; por isso, para nós, o importante não é a datação exata, mas o panorama geral.
Aliás, por que eles migravam?
Por muito tempo, na ciência ocidental, e mais ainda na soviética-marxista (Engels, Anti-Dühring), predominou a ideia de que: 1) povos “selvagens” esgotavam todos os recursos de suas terras natais e partiam em busca de novos lugares para se alimentar; 2) habitantes de regiões climaticamente desfavoráveis (que se tornaram assim, por exemplo, devido à glaciação) buscavam terras mais quentes.
Sem recorrer agora a Arnold Toynbee, Mircea Eliade e outros meta-historiadores, lembremos de Boris Fiódorovitch Porshnev, um dos primeiros (ainda na época soviética) a ousar apresentar outra hipótese: os jovens deixavam os lugares antigos porque não suportavam mais o jugo dos mais velhos, sua cega fidelidade às tradições e as exigências de submissão dos mais jovens (o conflito “pais e filhos” é eterno, de fato). — Ver Porshnev B.F. Sobre o início da história humana (Problemas de paleopsicologia. M., “Dumka”, 1974.
Outra questão é que, ao chegarem a um novo local, os jovens criavam suas próprias tradições, depois se tornavam velhos e tudo recomeçava…
Assim, nos primeiros séculos do II milênio a.C., os indo-arianos invadiram a Índia e o Irã vindos do norte.
Os indo-arianos eram de pele clara (“a primeira sub-raça da quinta raça”, como dizem os teósofos). Eles deslocaram para o sul os povos de pele escura que viviam ali, os drávidas (restos da quarta raça), e começaram a criar a cultura indiana.
Da Mesopotâmia para a Palestina, moveram-se os camitas-cananeus (fenícios), levando consigo o costume do comércio e o alfabeto fenício (uma versão modificada do acádio).
Eles eram chamados de camitas porque, segundo a tradição, os três filhos do bíblico Noé — Sem, Cam e Jafé — são considerados ancestrais de povos e até mesmo de grupos inteiros. Assim, Sem tornou-se o progenitor dos semitas, ou seja, judeus e árabes, além de outros povos; Cam deu origem aos camitas, ou seja, povos do sul, principalmente de pele escura (etíopes, fenícios) — suas línguas, embora relacionadas ao semítico, já estão muito distantes dele. E, por fim, as tribos iaféticas, descendentes de Jafé, que viviam nas margens do Mar Negro e no Cáucaso (armênios, georgianos e inúmeros povos menores).
Sobre eles e suas línguas, escreveu Nikolai Yákovlevich Marr (1864–1934), filho de escocês e georgiana, um brilhante linguista russo, autor de uma teoria incomum da semântica sistemática (a origem de todas as palavras a partir de quatro proto-raízes: sal — ber — iom — rosh). Ele não teve tempo de formular sua teoria, que foi apresentada por seus alunos e desagradou muito a Stálin: “isso… é adivinhação na borra de café” (I. Stálin. Marxismo e questões de linguística, p. 33).
Portanto, se algum dia você encontrar na biblioteca volumes grossos e brancos com detalhes dourados das obras de N.Y. Marr, não deixe de ler algo: você encontrará muito de interessante.
De Ur, na Suméria, parte Abraão, filho de Terá, com toda a sua família, em busca de felicidade em Canaã (Fenícia) — começa a história dos judeus. Não é à toa que o nome “Av-Ra’am” significa “Pai do povo”. Da Arábia para a Síria e a Mesopotâmia, migraram tribos de outros semitas nômades.
No entanto, os judeus permaneceram por muito tempo como um povo nômade primitivo. Eles não se estabeleceram imediatamente na Palestina, mas também foram para o Egito, depois retornaram, e Abraão, junto com sua esposa Sara e seu irmão Naor, por muito tempo foram considerados deuses-ancestrais, cujo culto persistiu até quase o cativeiro assírio (século VII a.C.).
Na Grécia, novamente do norte, invadiram as tribos dos aqueus — começa a história dos antigos gregos.
Os aqueus deslocaram os povos que viviam ali — dríopes, cários, pelásgios (filisteus) — primeiro para as ilhas do Mediterrâneo e depois para a África, Ásia Menor e Palestina. Daí vêm os “filisteus” — palestinos.
De acordo com algumas hipóteses, aproximadamente nesse mesmo período, uma nova onda de povoamento da América do Sul ocorre: territórios do México, Colômbia e Peru são invadidos pelos olmecas ou outras tribos desconhecidas, que transformaram a proto-civilização agrícola.
Alguns egípcios não migraram para lugar algum (o que, provavelmente, contribuiu para que permanecessem na era de Touro por tanto tempo). Nesse período, o Egito se unifica sob o domínio de Tebas — também chamada de Cidade das Cem Portas, embora não fosse de ouro. Os gregos a chamavam assim para diferenciá-la de suas Tebas beócias, que eles denominavam de Sete Portas. No entanto, os egípcios também não ficaram parados; realizavam campanhas militares e conquistavam países vizinhos — a Núbia, a Síria, a Palestina — ou eram conquistados (hicsos, depois persas, depois Alexandre Magno).
Contudo, essa “troca” ao final da era de Áries produziu resultados importantes: elementos da cultura egípcia, e principalmente de sua esoterica — ou seja, a visão de um mundo visível e invisível — foram transmitidos a muitos de seus vizinhos, desde os ashanti no sudoeste até tribos indianas no nordeste, assunto que ainda teremos de abordar. Os próprios egípcios, como convém aos de Touro, quase não assimilaram essas influências, como demonstra o exemplo do faraó Aquenáton.
Por volta de 1500 a.C., quando Moisés conduz os hebreus para fora do Egito, surge o faraó Amenófis IV, que adota o nome de Aquenáton e tenta implantar o culto ao único deus solar — Aton. Com sua morte, esse culto “monoteísta” também termina: os egípcios não migraram, permanecendo na era de Touro, e o culto ao “Senhor” não se enraizou entre eles. No entanto, os hebreus, ao deixar o Egito, levaram consigo essa ideia, e já no século X a.C. surge entre eles o primeiro reino unificado de Israel e Judá (Salomão, filho de Davi — paz esteja com ambos — dinastia dos Salomônidas). Uma recaída da “consciência taurina” se manifesta nos hebreus quando Moisés, no Monte Sinai, fala com Deus para receber as tábuas da aliança monoteísta, enquanto seus compatriotas constroem um bezerro de ouro para adorá-lo.
Yahweh tinha uma esposa, chamada Anat, protetora da cidade de Hebrom, cujas façanhas como guerreira eram descritas no “Livro das Guerras de Yahweh”, que não chegou até nós; também havia o deus da guerra Laquem e a deusa da morte Mot, o deus solar Shamash e muitos outros.
Mas o Estado “ariano” entre os hebreus mostrou-se frágil. O arquétipo principal dos hebreus, Peixes (ou melhor, o quincunce Peixes-Escorpião), é pouco compatível com os princípios de Áries, e Yahweh, afinal, é um deus saturnino — ou seja, tem uma relação muito indireta com Áries. A verdadeira florescência da ideia hebraica só ocorreu na era de Peixes, ou seja, praticamente em nossa época. Mas essa concepção era inicialmente antagônica ao Estado, por isso o exílio (Gálut) é uma consequência natural, e não um castigo divino. Aliás, o Gálut começou muito antes da destruição do Templo pelo imperador Tito (9 ou 70 d.C.).
Até meados do segundo milênio a.C., essa transição estava basicamente concluída. Por volta de 1400 a.C., o chefe chinês Pã Geng levou sua tribo para junto do rio Amarelo, onde fundou a “grande cidade de Shang”, que deu nome à dinastia e à era da história chinesa (V.I. Avdiev. História do Oriente Antigo. Moscou, “Vysshaya Shkola”, 1969).
Praticamente em toda parte surgiram novos reinos que imediatamente começaram a guerrear entre si. O elemento de Áries é o fogo, tudo devorador e consumidor: Shiva derramou sua semente fértil na chama de Agni, e nasceu o deus da guerra Skanda, também conhecido como Karttikeya, Mangala e Kujá. Teve início um longo período de conquistas e formação de grandes reinos, “impérios”: não é à toa que, nos tarôs, o arquétipo de Áries está ligado ao IV arcano, o onipotente “Imperador” ou “Senhor”.
Áries é considerado a “casa” de Marte. Antes de tudo, é o princípio masculino, a fertilização do campo. Nos mitos cosmogônicos, surge o tema da fertilização ou autofertilização (o famoso lingam de Shiva, o egípcio Atum, “que se fecundou a si mesmo”, casos de mutilação entre deuses e titãs da Grécia Antiga, e, por fim, o juramento de “pôr a mão sob a coxa” entre povos semitas e outros).
A coxa (em hebraico: yarech, “parte superior da perna”) é, evidentemente, uma versão posterior. Comparar com os comentários de N.M. Mikhelsky e do padre P. Florensky. De modo geral, todos os trechos da Bíblia que mencionam órgãos sexuais foram cuidadosamente editados, embora seja possível decifrá-los. Jurava-se justamente sobre as partes genitais, colocando a mão direita sobre elas. Não é à toa que, mais tarde, os romanos chamavam essas partes de verenda, da palavra vere — “verdadeiramente”.
O mesmo Áries, ou seja, o bode ou o carneiro, antigo símbolo do elemento fogo, era também símbolo de sacrifício expiatório e purificador. Daí vem o “bode expiatório” dos antigos hebreus — um bode negro sobre o qual eram depositados todos os pecados do povo, após o que era conduzido ao deserto e consagrado ao demônio Azazel. E inúmeras divindades com chifres, patas de bode ou formas caprinas: o Peixe-Cabra Ea, deus da sabedoria dos babilônios, o carneiro de ouro dos gregos, e assim por diante.
Marte-guerreiro substituiu Marte-agrícola, pois o metal de Marte é o ferro. Até 1500 a.C., a maioria dos povos já dominava o ferro. Os deuses pacíficos da fertilidade da era de Touro perderam sua tranquilidade. O deus masculino (yang) da fertilidade transformou-se em deus da guerra, “personificação da ferocidade belicosa, fonte de destruição, carnificina e derramamento de sangue” (Lendas e contos da Grécia Antiga e Roma Antiga. Compilado por A.A. Neuhardt. Moscou, “Pravda”, 1987). Assim, à imagem do homem, inicialmente puro símbolo da força yang, foram acrescidos conceitos de violência e guerra, o que, infelizmente, por muito tempo definiu a consciência e a autopercepção do indivíduo e da sociedade.
Um exemplo clássico é Ares grego, também chamado de Marte romano (Mavors). Inicialmente, era o deus da fertilidade e da força masculina; na era do ferro, tornou-se uma divindade cruel que exigia sangue. Antes de uma batalha, especialmente contra um inimigo superior, ofereciam-se sacrifícios ao deus da guerra — e muitas vezes sacrifícios humanos.
O poeta alemão Ludwig Uhland escreveu o poema Ver Sacrum, “Primavera Sagrada” (aliás, composto há exatamente 165 anos, em novembro de 1829):
Tudo o que até agora guardamos em nosso celeiro,
Doaremos ao fogo sagrado:
Que o novilho não conheça o jugo, o cordeiro não seja tosquiado,
E o cavalo não seja montado!
Uhland descreve a conhecida lenda romana sobre como os habitantes da cidade de Lavínio, sitiada pelos etruscos, decidiram sacrificar ao Marte os jovens e donzelas mais nobres — um destino do qual os salvou apenas um milagre: a lança cravada no chão inflamou-se, e o sacrifício foi adiado (infelizmente, não cancelado. Ver: Uhland L. Poemas. Moscou, “Literatura Artística”, 1988).
Mas o pior nem era isso. Marte em Áries, “em sua própria casa”, significa não apenas agressividade e egoísmo sem limites, mas também traição, engano e covardia. Quem atrapalha deve ser morto, se for mais fraco. Se for mais forte — deve ser enganado para que não te mate.
Para não ir muito longe em busca de exemplos, lembremos do “pai dos povos”, Abraão, que duas vezes apresentou sua esposa Sara como irmã, na esperança de que o rei estrangeiro “a tomasse” e fosse benevolente com ele (Gênesis 12:13, 20:2), ou a história de Judite, que matou o adormecido Holofernes. Sem mencionar o “rei justo” Davi, que, na juventude, dedicava-se ao banditismo e não hesitava em usar quaisquer meios para fortalecer seu reino (Primeiro Livro dos Reis 1, 2).
Exemplos como esses podem ser citados aos montes, e não apenas na Bíblia. Deuses indianos, gregos e chineses demonstram verdadeiras maravilhas de astúcia e traição.
Essa lógica primitiva prevaleceu na consciência humana a ponto de, ao final da era de Áries (sob a influência da era de Peixes), todos os livros sagrados e leis incluírem o mandamento “Não matarás”. E também outros preceitos destinados a pôr fim aos excessos do arquétipo de Marte: “não roubarás”, “não mentirás”, “não cometerás adultério” … (os Dez Mandamentos da Bíblia, os cinco mandamentos do ioga e do budismo, os tabus das proto-civilizações africanas e americanas, etc.). “O homem que pratica a violência deve ser considerado pior criminoso do que o assassino, o ladrão e aquele que fere com um cajado” (Leis de Manu, cap. VIII. Trad. S.D. Elmanovich. Moscou, 1992).
Uma das consequências do caráter marciano da era de Áries foi o surgimento da concepção de tempo linear ou “axial”, como alguns pesquisadores modernos o chamam. A redondeza, a ciclicidade do arquétipo de Vênus, que pressupõe uma eterna alternância de fases espaço-temporais, é substituída pela linearidade direta, pelo progresso do arquétipo de Marte: o complexo de ideias cosmogônicas é enriquecido com a ideia do fim do Universo e da cadeia de encarnações humanas, o perigo do macrocosmo e do microcosmo. O desenvolvimento lógico dessa ideia leva ao “fim do mundo” ou ao Juízo Final.
O Juízo Final significa o fim da evolução cósmica da humanidade ou sua transição para um estado puramente espiritual. No esoterismo indiano (venusiano), trata-se da absorção da matéria pelo princípio espiritual, o fim do “dia de Brahma”; no persa (marciano), da vitória de Ormuz sobre Arimã, do bem sobre o mal. Nas três religiões mundiais (judaísmo, cristianismo e islamismo), trata-se da subjugação final do mal-diabo, do castigo dos pecadores e da recompensa aos fiéis, da construção da Cidade de Deus.
“Esta última pode ser considerada como uma sublimação moral-psicológica do desconforto espiritual de uma pessoa que não aceita mais a ordem mundial como algo natural, mas é impotente para mudá-la”, escreve Yu.V. Pavlenko do Instituto de Arqueologia da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia. (Pavlenko Yu.V. O aspecto temporal do problema da Libertação-Salvação nas culturas do “tempo axial”, em: Espaço e tempo nas culturas arcaicas, anais do colóquio, M., 1992).
Assim surge a ideia de Salvação. Pavlenko e outros pesquisadores a remetem ao meio da era de Áries (por volta de 1000 a.C.), mas sua manifestação final só se torna clara na época de Ciro e Esdras (séculos VI–V a.C.).
Do ponto de vista esotérico, a Salvação é a purificação do acúmulo de impurezas, ou seja, o restabelecimento do equilíbrio — individual ou mundial. De acordo com isso, a ideia de Salvação se divide em dois modelos — novamente, citando Pavlenko: “O primeiro, especialmente característico da Índia, mas também amplamente disseminado na Grécia e na China, pode ser definido como a Libertação individual além do continuum espaço-temporal por meio da fusão com o princípio primordial do mundo (Brahma, Tao etc.). O segundo, representado na ideologia zoroástrica e veterotestamentária, mas parcialmente consonante também com o confucionismo, é visto como a salvação coletiva no fim dos tempos, em um ponto central do espaço.”
Assim, a esperança de uma mudança automática das fases de desenvolvimento do cosmos e do indivíduo cede lugar à esperança de ingressar no número dos eleitos por meio da filiação a uma comunidade correspondente ou por esforços individuais, o que também contribui para a formação e consolidação das futuras religiões mundiais.
Ao mesmo tempo, inúmeros panteões locais finalmente se organizam em hierarquias coerentes, lideradas por uma divindade vencedora sobre as demais. Como observou corretamente F. Engels (em carta a K. Marx de 18.10.1846), “um único Deus jamais poderia ter surgido sem um único rei”.
Sob a influência de Áries, ocorre também a transformação do arquétipo do Sol (Áries é o signo de exaltação do Sol): de juiz (comparar com o babilônico Shamash como protetor dos contratos, a época hebraica dos Juízes, shofetim, Apolo como árbitro em competições etc.), ele se transforma em rei e conquistador. O mitraísmo torna-se a religião dos soldados.
Entre os gregos, após a queda de Troia (1200 a.C.), Zeus, um dos deuses mais jovens e protetor dos aqueus, torna-se o principal deus do Olimpo.
Os antigos deuses do período de Touro, os titãs e ancestrais diretos dos olímpicos, Cronos e Urano (“o velho e o mar”), transformam-se em inimigos, e a vitória sobre eles passa a ser vista como uma ação benéfica. Os titãs e centauros eram divindades próximas à natureza, e Cronos (que não é Saturno, mas Chronos, deus do Tempo) e Urano, como deus das águas celestiais, têm origem ainda mais antiga: basta lembrar o Zurvan persa e o Varuna indo-ariano, também conhecido, segundo Mary Boyce, como o persa Apam Napat, deus das águas terrestres e celestiais.
O arquétipo moderno de Saturno inclui ambas as faces: é tanto um estrategista-militar quanto um símbolo do tempo e da morte física. Como estrategista, pode ser identificado com Iahweh, cuja face posterior foi transmitida ao Deus-Criador, Sabaoth (cujo nome, aliás, em hebraico, Tzevaot, significa “forças armadas”). Como deus do tempo, é sobretudo Zurvan, símbolo do tempo eterno e infinito, acima do bem e do mal — afinal, ele é o pai do deus do bem, Ormuz (Aúra-Masda), e do deus do mal, Arimã (Andra Mainyu). E, é claro, a imagem familiar do velho (ou da velha) com a foice, símbolo da morte. Mas trata-se novamente da morte física, não da espiritual: não por acaso, na maioria das culturas, distinguem-se a “primeira” (física) e a “segunda” (espiritual ou definitiva) morte.
O arquétipo moderno de Urano difere drasticamente de tudo o que se associava a ele na antiguidade. O fato é que as imagens dos deuses antigos, como já mencionamos, recebiam sua interpretação a partir das características do movimento dos planetas. No entanto, os antigos conheciam apenas os planetas até Saturno; Urano foi descoberto em 1781, Netuno em 1846 e Plutão somente em 1930. Por isso, esses chamados planetas trans-saturninos receberam nomes de deuses, e não o contrário. Contudo, logo ficou claro que os arquétipos antigos correspondem apenas parcialmente à situação moderna, e então teve início um processo de complementação e reelaboração que perdura até hoje.
Basta dizer que o arquétipo uraniano moderno é Aquário, ou seja, a Rússia (e também, por exemplo, a Finlândia e a Lituânia). Isso, em primeiro lugar, representa um anseio irresistível por liberdade, que se manifesta na recusa a reconhecer quaisquer obrigações e compromissos. Mas também é uma mente não convencional, não limitada por padrões, que gera novas hipóteses, planos e concepções.
Assim, a aspiração à centralização do Estado levou à “centralização” do culto e da visão de mundo. A Terra ocupa uma posição firme no centro do Universo. No centro da Terra está a montanha sagrada (o Olimpo para os gregos, o Meru para os indianos, o monte Tabor para os hebreus), onde habitam os deuses. A ideia de uma mudança infinita de ciclos existenciais na maioria das culturas é substituída ou complementada pela ideia de Salvação.
Nesse período (a partir de aproximadamente o século XIII a.C.), surgem os épicos (narrativas protobíblicas, Gilgamesh, os Vedas, o I Ching), aparecem as primeiras compilações de leis (Hamurabi) — inicialmente transmitidas oralmente e depois registradas de forma muito imperfeita. Somente no final da era de Áries, ou mais precisamente cerca de 500 anos antes do início de nossa era, esses registros finalmente assumem a forma de livros, chegando até nós em sua essência.
Assim nascem as “fontes primárias” da literatura religiosa e mitológica histórica. Após alguns séculos, a imperfeição e, em seguida, a perda de parte dos registros levarão à sua renovação e, não raro, à reescrita completa. No entanto, os livros reescritos ou recriados são sempre proclamados como “originais”, e para lhes conferir maior autoridade, seu autor é identificado como um ou outro profeta, que ao longo dos séculos tornou-se lendário.
Assim, Moisés, Zoroastro, Buda e Confúcio tornam-se autores de suas doutrinas. Não por acaso, todos eles pertencem (segundo as lendas) a uma mesma época. A história é escrita retrospectivamente.
Lembra-se de Bulgakov? “Segue-me sempre uma pessoa com um pergaminho de cabra e escreve sem parar”, diz Jesus. — “Uma vez dei uma olhada em seus registros… Nada daquilo que está escrito ali eu disse.”
Será que Moisés, Zoroastro e Buda realmente existiram? Provavelmente sim, embora isso não seja mais o principal para nós. “E será que o menino encontrado nos juncos, ou seja, Moisés, existiu?” — essa pergunta hoje já não faz sentido. Ainda mais porque, quando se trata de religião, nem sequer é apropriado formulá-la. Do ponto de vista ecumênico, ou seja, filosófico, ele não é importante: Moisés e os demais há muito se tornaram símbolos não de uma, mas de inúmeras doutrinas que remontam a eles em sua história.
Através de Moisés, que quer que fosse, se negro ou se isso seria alguma reminiscência dirigida ao próprio Aquenáton, a lei hebraica (Torá) foi retrospectivamente construída. Essa foi uma ligação necessária, aberta na época do cativeiro babilônico: em Babilônia, ninguém (!) entre os judeus tinha ouvido falar de Moisés e de suas leis. E então Esdras, cujo papel na história do Antigo Testamento é ainda maior do que o de Moisés, devolveu este último, já quase o absorvendo em seu esquecimento histórico.
Contam até três Zoroastros: o primeiro — neto de Noé, filho de Cam (limite da era de Gêmeos e Touro), o segundo — contemporâneo de Moisés (auge da era de Áries), o terceiro — contemporâneo de Esdras (VI-V séculos a.C.). Quem deles foi uma figura histórica e em que medida é difícil julgar. A pesquisadora britânica Mary Boyce sugere que o Zoroastro histórico foi um contemporâneo mais jovem de Moisés, ou seja, viveu entre 1500 e 1200 a.C. (Zoroastrianos. Crenças e costumes. M., “Nauka”, 1988), o que é confirmado pelo tipo de pensamento representado nos estratos mais antigos do Avestá, embora sua redação canônica não seja anterior à época de Esdras.
Quanto à existência do príncipe Shakyamuni, também conhecido como Gautama Buda, os historiadores duvidam menos, e a realidade de Confúcio, ao que parece, não causa dúvidas a ninguém, embora a personalidade de seu contemporâneo Lao-Tsé ainda seja objeto de controvérsia.
Foi justamente a imperfeição dos antigos livros que mais tarde os tornou a mais rica fonte de doutrinas esotéricas. Pois nestes ensinamentos, o principal é a interpretação, e interpretar textos lacunares, editados repetidamente, que além disso contêm inúmeras palavras esquecidas ou que mudaram de significado, pode ser feito de muitas maneiras.
Não é à toa que o grande esoterista e maior filósofo de nossa época, Piotr Demianovich Ouspensky, conseguiu interpretar o Quatro-Evangelho de tal forma que não restam dúvidas ao leitor: Jesus não era uma divindade nem um líder religioso, mas um mestre-esoterista, semelhante a Apolônio de Tiana ou ao próprio Buda (Um Novo Modelo do Universo. SPb., 1993, cap. 4).
Justamente no período da era de Áries, especialmente em sua segunda metade, destacam-se pessoas que possuem habilidades “sobrenaturais”, ou seja, aquelas que entram em contato direto com Deus na forma de revelação, usando o termo dos antigos, ou simplesmente se dão ao trabalho de refletir sobre as leis do mundo e do homem, se abordado do ponto de vista da filosofia esotérica. Podem ser divididos em três categorias: 1) reis e sumo-sacerdotes, que, por assim dizer, têm por definição; 2) profetas, que séculos depois ganharam reconhecimento; e 3) magos (falsos profetas), que séculos depois mereceram condenação. Além disso, nos dias de suas ações, a diferença entre os outros e os terceiros não existe: os contemporâneos não conseguem avaliar quem, entre aqueles que se declaravam profetas, dizia a verdade.
Aliás, sobre verdade e justiça. Em russo, esses não são sinônimos, embora hoje em dia essas palavras sejam frequentemente confundidas. Se “verdade” é aquilo que é, “é a verdade”, então “justiça” é a LEI (lembre-se da “Ruskaia Pravda” — um código de leis da Rússia de Quieve). Não é à toa que Pôncio Pilatos pergunta a Jesus não “o que é justiça” (ele conhecia a lei), mas “o que é a verdade”. Portanto, o nome do jornal “Pravda” não significava aquilo que seus fundadores pensavam ao escolher tal nome.
Sobre o conceito de verdade em outras línguas há um bom, embora breve, estudo de P. Florenski (A Coluna e o Fundamento da Verdade. SPb., 1915). Assim, se na língua hebraica a verdade (Emeth) deriva da raiz AMAN — “ser firme”, no sentido figurado “fiel”, daí “amém”, no grego é ‘alhtheya, negação de a + lhthos (lathos), “erro”, ou seja, “sem erro”. Entre os romanos, trata-se antes de um termo jurídico (veritas), significando um julgamento verdadeiro como antônimo do falso (cf. true e false na álgebra booleana e na lógica computacional atual), mas remonta ainda a verenda — lembre-se do antigo juramento.
O título de profeta é atribuído apenas retrospectivamente e apenas àqueles cuja pregação corresponde ao espírito da época (alemão Zeitgeist) ou, pelo menos, à ordem do governante reinante. No entanto, os escritos dos falsos profetas também são preservados — embora, muitas vezes, acidentalmente — para depois se tornarem material de reflexão para inúmeras seitas de diversos tipos, que surgem dois ou três séculos antes da nossa era (sifitas, fariseus, saduceus, essênios). Mas eles já pertencem à era de Peixes.
Nessa época, finalmente, começam a se desenvolver disciplinas esotéricas separadas, principalmente astrologia e adivinhação. Inicialmente, elas não serviam às necessidades individuais do homem, mas eram, por assim dizer, uma das ferramentas da política estatal. Horóscopos de reis e estados eram feitos, novas cidades eram fundadas em dias especialmente escolhidos. Na China, médicos, astrólogos e adivinhos estavam a serviço do imperador, ao lado de escribas e outros funcionários.
Na segunda metade da era de Áries (I milênio a.C.), o maior centro do desenvolvimento do pensamento esotérico tornou-se a Babilônia. Foi lá que a matemática foi desenvolvida com base nos sistemas decimal, vigesimal e sexagesimal, e os princípios da numerologia. Também foi lá que foi composto o primeiro (conhecido) horóscopo individual — para algum cortesão, mas não para um rei (410 a.C.).
No século VI a.C., astrologia e numerologia penetram da Babilônia na Grécia. Pitágoras funda sua escola. Começa a reelaboração dos antigos textos: junto ao sagrado, neles é inserido um sentido filosófico. Afinal, a filosofia em nosso sentido começa apenas a partir desse momento (Sócrates, Platão).
E, por fim, os últimos três séculos antes da nossa era marcam um verdadeiro salto no pensamento religioso, filosófico e esotérico. Aproxima-se a era de Peixes: o elemento fogo (Áries) se combina com o elemento água, e forma-se um par, uma névoa — nada é visível, o futuro parece nebuloso e ameaçador aos olhos das pessoas, além disso, há guerra ao redor e o fim do mundo parece iminente e inevitável.
Surgem livros de profundo conteúdo filosófico: “Eclesiastes”, “Instrução de Ben-Sira” (Livro de Jesus filho de Sirá), as alegóricas “Provérbios” e “Cântico dos Cânticos”, atribuídos a Salomão (século III a.C.); desenvolve-se o gênero da literatura apocalíptica (Revelação de Elias, de Adão, de Esdras e, por fim, o Apocalipse de São João — o Apocalipse do Novo Testamento), bem como a literatura puramente mística: Livro de Enoque, Livros Sibilinos etc. Het Monster. História das doutrinas esotéricas. Aula 4. China e Tibete
O Império do Meio
Comecemos pela China como centro das civilizações do Extremo Oriente, de onde muitos avanços do pensamento humano se espalharam para países vizinhos — Tibete e Mongólia, Coreia, Japão e Vietnã. Está claro que não se trata apenas de papel e tinta, porcelana e macarrão, mas, acima de tudo, de ideias e concepções destinadas a explicar a estrutura do mundo ao redor e o papel do homem nele.
Essas concepções foram finalmente formadas, ou melhor, formuladas até o fim da era de Áries (séculos VI-V a.C.) e permaneceram inalteradas em sua essência até nossos dias, constituindo a base das três principais correntes do pensamento religioso-filosófico chinês: taoísmo, confucionismo e budismo. Até mesmo a penetração de novas religiões vindas do Ocidente (cristianismo e islamismo de várias vertentes), iniciada na segunda metade do primeiro milênio d.C., e de novas teorias filosóficas, que começaram apenas no final do século XIX, acrescentou algo ao mundo espiritual dos habitantes da Ásia Oriental, mas não mudou nada em sua essência.
Hoje, é claro, eles sabem que a Terra gira em torno do Sol, estão familiarizados com todas as conquistas da ciência moderna e até mesmo alcançaram muito nela, mas sua visão de mundo, e consequentemente em grande medida seus negócios e ações, são determinados justamente pela imagem tradicional do mundo, de base esotérica. Não é à toa que o sinólogo americano J. Needham considerava que o pensamento chinês é o mais próximo de uma filosofia universal (ecumênica) do futuro (Needham, J. Science in Traditional China: A Comparative Perspective. Cambridge/Mass./Hong Kong, 1981).
Os chineses, desde tempos antigos, chamavam seu país de Reino do Meio (Zhong Guo), acreditando que ele “não gira em torno de nada”, mas está no centro não apenas do mundo habitado, mas de todo o universo. Ao norte vivem os bárbaros, ao sul — tribos aparentadas, a oeste erguem-se montanhas, e a leste encontra-se o oceano, onde também vivem pessoas diferentes ou, pelo menos, seres a elas aparentados, como na montanha Penglai, morada dos imortais, localizada além do horizonte. Sobre a China estão os Céus, habitados por inúmeros deuses de diferentes graus, e sob ela — os infernos, reino do poderoso Yan-wang, chefe de um exército inteiro de funcionários e juízes que julgam as “causas” das almas recém-chegadas.
Na verdade, nos tempos mais remotos, o Reino dos Mortos, na concepção chinesa, também se localizava na superfície da Terra, bem ao norte. Mas o esquema tripartite de divisão vertical do mundo se mantinha: entre o Céu e a Terra estava o Homem. Nele, facilmente reconhecemos o já conhecido esquema da “pirâmide”, comum a todas as culturas antigas: três “andares” na vertical e quatro direções cardeais na horizontal.
No entanto, a ideia de que seu reino ocupava uma posição “central” levou os chineses não apenas a introduzir um quinto elemento (o centro) na concepção da estrutura horizontal do mundo, mas também permitiu que desenvolvessem e modificassem amplamente esse esquema a ponto de se tornar a base da metodologia de conhecimento, determinando, em última análise, a singularidade do pensamento chinês, que, para nós, europeus, é pelo menos pouco compreensível, quando não completamente ininteligível. Na verdade, o estudo sério (e a compreensão!) do modelo chinês de mundo começou apenas no século XX, e mesmo assim de forma gradual, aos poucos, sendo raro conseguir reconstruir sua totalidade.
Não é à toa que Artem Igorovich Kobzev escreve que foi justamente a “doutrina dos símbolos e números” (numerologia), que fundamentou a visão de mundo chinesa, a mais natural — ou seja, a mais adequada à estrutura da consciência humana — e ajudou essa visão a preservar suas principais características ao longo de milênios (!), enquanto na Europa, nesse mesmo período, dezenas, se não centenas, foram substituídas.
Em geral, o livro de Kobzev (Doutrina dos símbolos e números na filosofia clássica chinesa. Moscou, “Vost. lit.”, 1994) é uma fonte muito detalhada e precisa de informações sobre o modelo chinês de mundo. Em forma resumida, essas informações são apresentadas em seu artigo “Traços da metodologia filosófica e científica no tradicional China”, publicado na coletânea: Ética e ritual na China tradicional, Moscou, “Nauka”, 1988.
Em certa medida, isso também está relacionado às particularidades da língua chinesa, afinal, a linguagem é a base do pensamento. Por exemplo, na língua chinesa não existe o verbo de ligação “ser”, como na maioria das línguas europeias.
Mesmo no russo, ele ainda está presente, embora de forma reduzida: hoje em dia já não dizemos “eu sou”, como os antigos russos ou como os poloneses — Jestem Polakiem — e no passado também se perdeu: dizemos “eu corri”, e não “eu era que tinha corrido”, como os sérvios. No entanto, o desenvolvimento semelhante da língua russa, combinado com a ideia do papel da Rússia como Aquário na Era de Aquário, dá esperança de que nós, russos, possamos entender a China melhor ou, pelo menos, mais rapidamente do que os ocidentais.
Por isso, as questões que tanto ocuparam e continuam a ocupar os falantes de línguas europeias — essência e existência, ser e não-ser, unidade e diferença, ou seja, termos formados nas línguas europeias por meio da substantivação de várias formas do verbo “ser” — nem sequer eram levantadas na filosofia chinesa. Os chineses, e depois deles os povos de outras regiões, distinguiam apenas existência e não-existência. Se algo existe, pode ser expresso em palavras. Se não existe, é indizível. E o indizível só pode ser expresso pelo silêncio… Eis a origem da “Cultura do Silêncio” dos japoneses.
Cinco e dez
Voltemos, porém, ao modelo de mundo. “Do Um nasceu o Dois, do Dois nasceu o Três, do Três nasceu a miríade de coisas”, como está escrito no Daodejing. Dois e três somados dão cinco — cinco direções do mundo: leste, sul, oeste, norte e centro. De acordo com isso, são distribuídos os elementos ou forças primárias da natureza:
leste — madeira — azul (verde) — Júpiter
sul — fogo — vermelho — Marte
centro — terra — amarelo — Saturno
oeste — metal — branco — Vênus
norte — água — preto — Mercúrio
Aliás, essa é a ordem esotérica de enumeração dos elementos: é assim no calendário e em várias exposições filosóficas. Para explicar fenômenos da natureza e processos sociais, usava-se outra ordem: terra, água, fogo, metal, madeira.
A cada direção cardeal estão associadas cores específicas, bem como planetas do Sistema Solar. Podem ser representados na forma de uma “rosa dos ventos” comum, com a “terra” no centro:
Esta é a chamada “Sede Luminosa” (Ming Tang), um esquema classificatório básico. Se considerarmos também os rumos intermediários (sudoeste, noroeste, etc.), obteremos o Ming Tang completo ou de nove membros, um quadrado mágico 3×3, uma eneagrama. Não é à toa que se diz: “Com o auxílio de tríades, organizam-se as pentadas”. Assim também se apresenta, aliás, o mapa natal na astrologia chinesa.
O mesmo esquema pode ser representado na forma de uma pentagrama:
vermelho FOGO Marte
sul
coração — canal de controle /→ (Três Aquecedores — Pericárdio)
/
azul MADEIRA Júpiter _ _ _ _ amarelo TERRA Saturno
leste . centro
fígado — vesícula biliar . estômago — baço
. .
preto ÁGUA Mercúrio branco METAL Vênus
noroeste
rins — bexiga pulmões — intestino grosso
Daí surgem as “Cinco câmaras do corpo” ou “Cinco órgãos sólidos” (Zhang): fígado, coração, baço, pulmões e rins. E, de modo geral, muitas coisas e conceitos agrupados na pentada, incluindo os Cinco Clássicos, famosos confucionistas (Shujing, Shijing, Yijing, Liji e Chunqiu).
Segundo os budistas, o organismo humano é composto por cinco substâncias: vasos, ossos, carne (músculos), pele e sangue. O esqueleto também é composto por cinco partes principais: crânio, coluna vertebral, escápulas, costelas e ossos tubulares nos membros (os ossos pélvicos são considerados uma variação das escápulas). Observemos ainda que nas mãos e pés há cinco dedos cada. A coluna vertebral também se divide em cinco seções: cervical, torácica, dorsal, lombar e sacral. Os principais órgãos dos sentidos são cinco: visão, audição, olfato, paladar e tato. O ser humano expele cinco fluidos: muco, saliva, suor, urina e lágrimas. Ele consome cinco substâncias do ambiente: ar, água, minerais, carne e plantas.
O feto no ventre começa a se mover no quinto mês e nasce no décimo. Se uma pessoa adoece, cinco sons a acompanham: tosse, espirro, bocejo, arroto e soluço. A tosse é sinal da atividade dos pulmões, o espirro do nariz, o soluço da garganta, o bocejo dos nervos e o arroto do estômago.
Enquanto os astrólogos europeus distinguem quatro temperamentos, os budistas identificam cinco: 1. colérico (tipo impulsivo); 2. sanguíneo (emocional); 3. fleumático (rígido, duro); 4. melancólico (quieto); 5. intermediário ou calmo.
No entanto, cada um dos elementos existe como que em duas variantes — forte e fraca, masculina e feminina: yang e yin. Ao todo, são dez — os Dez Troncos Celestes (Tian Gan), ou sinais estáticos, base do calendário e da astrologia chinesa, e os Dez Órgãos Principais — aos Cinco Órgãos Sólidos somam-se os Cinco Órgãos Ocos (Fu): vesícula biliar, intestino delgado, estômago, intestino grosso e bexiga. Assim, temos os Dez Meridianos Principais do corpo humano, base da medicina chinesa.
Seis e doze
Organizando essas duas pentadas. Não é à toa que se diz “a unidade é maior que cinco” (Mozi): a unidade é a mão, ou melhor, a palma, “resumindo” os cinco dedos. Dez dedos são duas mãos, dez mais dois dá doze.
Pode-se abordar isso por outro lado. (Não é à toa que o conceito de “dao” também tem dois lados: afinal, não é apenas uma estrada, mas também o processo de movimento.) Em algum lugar cinco, ali seis: os chineses não negavam a existência do elemento ar. O ar é o que o homem e todos os seres vivos respiram; o ar é a personificação da energia vital “qi” (em diferentes fontes, também chamada de “chi” ou “ki” — cf. ginástica Qigong, terapia Reiki, etc.).
É verdade que os chineses não incluíam o “qi” entre os elementos comuns, considerando-o maior do que um elemento, pois permeia toda a estrutura do universo. Ainda assim, eles o levavam em conta em seus esquemas, colocando o homem como símbolo do “qi” no centro da pentagrama e, assim, obtendo um esquema de seis membros. Mas cada membro desse esquema tem duas formas — yang e, consequentemente, somando novamente doze.
No Tibete, foram ainda mais longe, incluindo o ar (qi) diretamente entre os elementos e dividindo-os em duas tríades: elementos terrestres — terra, água, madeira — e celestes — metal, ar, fogo. Assim, os conjuntos de três reorganizam os conjuntos de cinco. Resulta uma hexagrama:
CÉU fogo
metal ar
——————————————–
terra água
TERRA madeira
Esse esquema carrega a clara marca do budismo, que chegou da Índia, onde o esoterismo se desenvolveu de forma um pouco diferente (mais próxima de nossas concepções) — lembre-se da hexagrama indiana que representa três pares de deuses, homens e mulheres, simbolizando os seis sentimentos:
Shiva (intelecto)
Lakshmi _ _ _/_ _ _ Saraswati (tato) / / (ouvido) / / Brahma /_ _ _ _ _ _ Vishnu (visão) / (paladar)
Kali (olfato)
E a dupla hexagrama, como se sabe, também resulta em doze. Assim surge o complexo das Doze Ramificações Terrestres (Di Zhi) ou sinais dinâmicos, a parte mais importante do calendário e da astrologia chinesa — aliás, a única bem conhecida no Ocidente: os 12 signos cíclicos. Rato, Boi, Tigre, Coelho e assim por diante.
No entanto, no Ocidente, o assunto se limitou à publicação das brochuras mais populares sobre o que significa nascer no ano do Dragão ou do Cachorro. Mas nós já compreendemos que esse sistema é muito mais complexo e profundo.
Aliás, o Dragão nos povos do Leste Asiático não se parece em nada com aquele monstro horrível que é percebido pelos portadores de nossa cultura judaico-cristã. Para os chineses, é a personificação de uma força luminosa, símbolo de fertilidade. No taoísmo, o Dragão é símbolo da força criativa, o pensamento materializado. O Dragão Celestial também personifica a foz da Via Láctea, o local de encontro das partículas da matéria e das almas humanas.
O calendário chinês (e do Leste Asiático em geral) é composto por dois períodos paralelos que fluem: os Dez Troncos Celestes e as Doze Ramificações Terrestres, que, somados, resultam em um ciclo de sessenta anos. O ciclo começa com o ano da Madeira-Yang e do Rato (o ciclo atual começou em 1984). Depois vem o ano da Madeira-Yin e do Boi, depois o de Fogo-Yang e do Tigre, e assim por diante. A diferença de tamanho entre os dois períodos (10 e 12) garante a rotação das combinações de elementos e sinais cíclicos. Da mesma forma, alternam-se os sinais estáticos e dinâmicos dos meses e dias do ano. Mais detalhes podem ser lidos no livro: Tsybulsky V.V. Calendário lunissolar dos países do Leste Asiático. Moscou, “Nauka”, 1988; Klimishin I.A. Calendário e Cronologia. Moscou, “Nauka”, 1985.
Assim surge a principal cosmograma chinesa, que tem a forma do Trono Luminoso Ming-Tang:
+—————————————–+ |5 |3 |1 | | | | | | elemento | elemento | elemento | | dia | mês | ano | | | | | |————-+————-+————-| |6 |4 |2 | | sinal | sinal | sinal | | dia | mês | ano | | | | | |————-+————-+————-| |9 |8 |7 | | | | | | símbolos ocultos dos elementos | | | | | | | | | +—————————————–+
Além disso. Aos dez meridianos do corpo humano são acrescentados mais dois — o “Senhor do Coração” (pericárdio) e os Três Aquecedores (mais tarde foram adicionados os chamados “meridianos maravilhosos” e outros, mas eles não são incluídos no esquema principal). Assim, forma-se um círculo de doze setores ou “tartaruga”, que constitui o esquema mais importante de divisão do mundo.
Por que a tartaruga? Na Mongólia existe uma lenda:
Há muito tempo, em tempos antigos, vivia um caçador habilidoso com arco e flecha. Certa vez, ele caçava à beira de um lago e acertou um animal estranho. Era uma tartaruga. Ela caiu, ferida, e virou de costas, deitando-se com o ventre para cima. O caçador se aproximou. Viu que, sob suas quatro patas, havia pedaços de argila. Sob as patas dianteiras, havia um fragmento de uma flecha de madeira com ponta de ferro; de sua boca saía fogo, e de outra abertura saía água.
O caçador olhou, olhou e compreendeu que terra, ferro, madeira, água e fogo são aqueles cinco elementos primários dos quais o universo é composto. Na imagem que representa a tartaruga, novamente “os conjuntos de três reorganizam os conjuntos de cinco”, e os 10 sinais estáticos se unem aos 12 dinâmicos:
TARTARUGA
Sul cabeça Serpente Cavalo fogo-yin fogo-yang SE ———— SO pata Dragão / Ovelha pata vento (yang) / terra (yin) /
Coelho | | Macaco madeira-yin | | metal-yang LESTE | | OESTE Tigre | | Galo madeira-yang | | metal-yin / / Boi / Cachorro montanha (yin) ————– vazio (yang) NE Rato Porco NO pata água-yang água-yin pata cauda NORTE
Aí está a tartaruga — pode-se dizer, um modelo vivo do mundo. Em um sutra budista tibetano, está dito:
“Todo o universo cabe sobre uma tartaruga. Sua cabeça está voltada para o sul, a cauda para o norte, as patas para leste e oeste. O sul contém o elemento ‘fogo’ e corresponde aos signos do Cavalo e da Serpente; o oeste é ‘metal’ ou o Galo e o Macaco; o norte é ‘água’ ou o Porco e o Rato; o leste é ‘madeira’ ou o Tigre e o Coelho” (citado em: Skorodumova L. Dzurhai: astrologia budista).
Para os habitantes da China e da Mongólia, a carapaça da tartaruga servia como uma espécie de tabuleiro de adivinhação natural: até mesmo o livro “I Ching”, como se sabe, está relacionado à carapaça da tartaruga.
E ainda servia como símbolo da harmonia mundial, do equilíbrio cósmico inabalável (Balança) — não é à toa que se acreditava que a terra repousava sobre o dorso de uma tartaruga gigante. Daí o princípio: não faça nada que possa perturbar esse equilíbrio. Perturbar o equilíbrio é pecado, culpa, cuja punição não pode ser evitada. Preservá-lo é virtude (de), pela qual não se recebe recompensa especial. A preservação do equilíbrio leva o caminho duplo ou dao: a observância de rituais e o autoconhecimento.
Nesse contexto, o termo “de”, que apenas na era de Áries adquiriu o significado de “bondade” semelhante à kalokagathia grega (“não desejar o mal”), em tempos anteriores designava uma força sagrada, ou seja, divina, que só se derrama sobre a pessoa pronta para recebê-la — lembre-se dos profetas hebreus, das pitonisas gregas, dos xamãs, dos berserkers, dos santos cristãos…
Além disso, o círculo (tartaruga) é um símbolo de ciclicidade, de repetição de tudo e todos. Aqui há uma clara reminiscência das concepções da era de Touro (o mundo está bem estruturado e não há o que mudar), mas em uma forma um pouco diferente (o mundo está estruturado como está e não há o que mudar) — não é à toa que a maioria das culturas do Leste Asiático é descrita pelo arquétipo de Balança, e Balança, assim como Touro, é a casa de Vênus.
Os meridianos chineses são pares, ou seja, pressupõem a interação de dois setores opostos do círculo, por exemplo, coração e vesícula biliar. Entre eles ocorre a troca de energia. Isso significa, por exemplo, que tratar uma desordem em um meridiano pode ser feito por meio do outro. Da mesma forma, estão relacionados os arquétipos dos signos zodiacais, por exemplo, Áries-Balança. Daí não é surpreendente que, na era de Áries, muitos elementos do arquétipo oposto, Balança, tenham se ativado, e na cultura japonesa ambos estão representados quase igualmente.
Mas voltemos à nossa imagem. Nela, vemos que, entre os componentes principais da “tartaruga”, surgiu o número oito.
Oito
No Ming Tang, o oito surge ao se considerar os pontos intermediários da rosa dos ventos, e no círculo, ao se representar simbolicamente o “centro” (elemento terra) na forma de quatro setores menores, já que cada setor maior deve fazer fronteira com o centro. No entanto, os setores menores assim adquirem um valor quase independente, e, assim, um grande elemento se divide em quatro pequenos:
madeira vento | fogo terra | antiga metal vazio | terra água montanha |
As concepções sobre oito elementos, quatro grandes e quatro pequenos, componentes da quinta essência, surgiram na antiguidade. No entanto, foi com o desenvolvimento do budismo — incluindo nomes (lembre-se de zhengming), interpretações e princípios de aplicação prática — que os oito elementos ganharam maior destaque, embora em sua terra natal, na Índia, o papel do número oito como símbolo sagrado tenha permanecido bastante modesto (cf. “o caminho óctuplo da ação moral”).
O termo “vazio” também tem origem indo-budista. (e, consequentemente, seu significado): trata-se de shunyata, o grande vazio como receptáculo, a essência de Adibuddha. Como dito no livro Dao De Jing:
“Trinta raios e o cubo formam a roda, mas apenas o vazio entre eles constitui a essência da roda. O fundo e as paredes de argila formam o vaso, mas apenas o vazio entre eles constitui a essência do vaso.
O conhecido Trono Luminoso (Ming Tang), como recordamos, contém um octeto: são as células do quadrado mágico sem o centro. Juntamente com o centro, formam um noneto. Tanto o oito quanto o nove desenvolveram-se amplamente como bases da teoria do conhecimento no Tibete, onde os ciclos de oito e nove anos também foram incorporados ao calendário:
Oito elementos e nove cores
1 água 1 branco 2 terra 2 preto 3 ferro 3 azul 4 vazio 4 verde 5 fogo 5 amarelo 6 montanha 6 branco 7 madeira 7 vermelho 8 vento 8 branco 9 vermelho
(Na verdade, há seis cores aqui, algumas se repetem, mas são consideradas junto com o número, ou seja, com sua posição ordinal, o que proporciona a diferenciação necessária — uma formulação incomum para nós.)
A cada ano, mês e dia são verificados não apenas os 10 signos estáticos e os 12 dinâmicos, mas também os oito elementos e as nove cores. Cada pessoa conhece ou pode calcular seu elemento e cor, o que permite determinar os dias favoráveis e desfavoráveis para si, escolher uma profissão ou um cônjuge, entre outras coisas.
I Ching
O oito está na base da exposição do conhecido material do tratado I Ching, também chamado “Livro das Mutações”. Nele, são descritas 64 hexagramas formados pela combinação de oito trigramas principais. Há também o tratado Nan Jing — um dos mais antigos tratados médicos da China, baseado no noneto: ele define 81 complexidades da medicina clássica. Isso levou nosso sinólogo V.S. Spirine a chamar o I Ching de “leve” e o Nan Jing de “pesado”, com base no fato de que, em sua opinião, o I Ching opera com um esquema bidimensional, enquanto o Nan Jing, com um tridimensional. Em seguida, ele tenta dividir ou distribuir dessa forma todos os tratados filosóficos chineses, o que, como já compreendemos, está incorreto, pois a “dimensionalidade” é a mesma em todos os casos (três na vertical, quatro na horizontal), diferenciando-se apenas pelo número de elementos contabilizados. Para mais detalhes, consulte: Spirine V.S. A estrutura dos textos da China antiga. Moscou, 1976.
Não abordaremos o tratado Nan Jing devido à sua abordagem específica, embora aqueles interessados possam conhecê-lo na tradução de Denis Aleksandrovich Dubrovin: Questões difíceis da medicina chinesa clássica, Leningrado, “Asta Press”, 1991.
O I Ching opera principalmente com oito trigramas principais (Ba Gua), quatro dos quais ainda adornam a bandeira nacional da República da Coreia. São os mesmos oito elementos já conhecidos — quatro grandes e quatro pequenos —, embora recebam nomes ligeiramente diferentes:
—— —– qian céu criação —–
— — — — kun terra receptividade — —
— — — — zhen trovão excitação —–
— — —– kan água perigo — —
—— — — gen montanha imobilidade — —
—— —– sun vento suavidade — —
—— – li fogo clareza —–
— — —– dui lago alegria —–
Dos oito trigramas derivam-se 64 hexagramas, cada um acompanhado de uma descrição aforística. Ao longo dos séculos seguintes, comentários mais ou menos extensos, de natureza linguística, literária ou filosófica, foram acrescentados a eles.
De fato, a própria brevidade aforística dos antigos textos obrigava os leitores das épocas posteriores a complementá-los com comentários, de acordo com sua própria compreensão — seja do I Ching, do Antigo Testamento ou da Avesta. Até mesmo a relativamente recente “Kitáb-i-Aqdas” de Bahá’u’lláh, escrita na época de Napoleão III, já acumulou uma verdadeira biblioteca de comentários.
Provavelmente, Julian Konstantinovich Shchutsky estava certo ao afirmar que, inicialmente, o livro I Ching surgiu como um compêndio de regras puramente divinatórias, um manual prático de adivinhação. Afinal, na era de Áries — e especialmente na China — adivinhos e astrólogos eram considerados funcionários estaduais, sem cuja consulta nenhuma decisão importante era tomada.
No entanto, o próprio ponto de partida do qual o autor desse livro partiu — ou seja, o sistema natural (um dos naturais) de divisão do mundo, o oito, que ainda possui um caráter puramente terrestre e monoplanetário (ao contrário do dez, que já abrange o sistema solar) — transforma o I Ching na primeira “enciclopédia” conhecida sobre o mundo e o homem.
Para tal “enciclopédia”, ou melhor, para a teoria do macrocosmo e microcosmo, o que importa não é tanto a quantidade de “artigos” — ou seja, casos individuais —, mas o grau de detalhamento, ou seja, a resolução da lente, por assim dizer. Na verdade, até mesmo a divisão em dois (yang-yin) já permite classificar todas as coisas e fenômenos, agrupando-os em duas grandes categorias. 64 é igual a dois elevado à sexta potência, enquanto (voltando ao tratado Nan Jing ou, digamos, ao “Livro do Grande Mistério” /Taixuanjing/ de Yang Xiong) 81 é igual a três elevado à quarta potência. Onde, então, está a maior dimensionalidade?
Assim, cada “artigo” do I Ching revela-se, ainda que breve (aforístico), mas, ainda assim, uma descrição exaustiva de qualquer situação com precisão até a sexta casa decimal — o que já é muito. Isso é suficiente tanto para descrever eventos políticos em um ou outro país quanto para analisar a situação de vida de um indivíduo, ou até mesmo para prever os resultados de um experimento físico-químico. De fato: molécula — um, átomo — dois, elétrons e prótons — três, vários mésons mu e pi — quatro, quarks — cinco, grávitons — seis…
No entanto, para adivinhar usando o I Ching hoje, é necessário ou possuir profundo conhecimento da simbologia e simbolologia da China Antiga — algo difícil de exigir de não-sinólogos — ou recorrer a interpretações modernas, nas quais o significado de cada hexagrama é explicado na linguagem de nosso tempo.
Outro problema dos textos antigos é a mudança da consciência, ou melhor, do conteúdo da consciência dos leitores em cada nova geração. A linguagem também muda. Por isso, pelo menos uma vez a cada cem anos, esses textos exigem nova tradução ou, ao menos, um comentário, para que a “meta da comunicação”, como se diz na teoria da tradução, continue sendo alcançada…
O principal sentido deste livro, assim como de muitos outros, hoje não está na adivinhação. O I Ching oferece ao leitor uma metodologia de conhecimento do mundo, ainda que complexa e que exige estudo atento, mas acessível até mesmo aos não-sinólogos, pois os fundamentos do sistema chinês de visão de mundo são muito simples e lógicos — como já tivemos a oportunidade de constatar.
Quem desejar conhecer o I Ching, por assim dizer, de primeira mão, pode recorrer à obra de Julian Konstantinovich Shchutsky, que já se tornou quase tão clássica quanto o próprio “Livro das Mutações”: Shchutsky Yu.K. O Livro das Mutações chinês clássico. Moscou, São Petersburgo, AT “Komplekt”, 1992. Sobre a literatura chinesa antiga em geral, há um bom livro de N.T. Fedorenko: Monumentos antigos da literatura chinesa. Moscou, “Nauka”, 1978. Nele são apresentadas listas de literatura especializada sobre esses temas.
Lao Zi, Buda e Confúcio
Não analisaremos detalhadamente as três principais correntes da filosofia chinesa — confucionismo, taoísmo e budismo, muito menos as escolas menores.
Em primeiro lugar, porque, como já mencionado acima, todas elas se baseiam no mesmo modelo de mundo. Sem conhecer a base, não há sentido em abordar os detalhes, mas conhecendo-a, é possível compreender e analisar por conta própria.
Em segundo lugar, porque tal análise é melhor conduzida no âmbito de um curso de história da filosofia ou da religião, e ainda melhor — no departamento de filologia chinesa, japonesa ou tibeto-mongol. Afinal, religião e filosofia são coisas distintas, sobretudo porque, neste caso, não nos interessa a filosofia em geral, mas apenas o esoterismo — ou seja, uma das filosofias ou, antes, um dos componentes de qualquer filosofia, cuja proporção pode ser maior ou menor.
Do ponto de vista do esoterismo, aliás, nada pode ser apresentado como uma fração do todo que equivalha a cem por cento ou a zero: em todo todo há espaço para algo outro, com frequência — o oposto. Esse princípio esotérico está expresso praticamente em todos os livros da China antiga, e especialmente no I Ching: não é à toa que ele é chamado de “Livro das Mutações”, ou seja, da mudança constante do yang para o yin e vice-versa.
Qual é a proporção de esoterismo nas principais escolas da filosofia chinesa?
Confucionismo
O confucionismo é, sobretudo, uma doutrina para exotéricos, ou seja, para os “de fora”: pessoas comuns, não estudiosos. Confúcio, aliás, enfatiza que se dirige a todos, sem distinção de idade, condição social ou nível de instrução.
Para assegurar a harmonia do mundo, ordenava-se simplesmente seguir os ritos (li), elaborados para todas as situações da vida. A violação dos ritos equivalia à quebra do equilíbrio cósmico e, de fato, o era. É verdade que Confúcio e seus discípulos não consideravam necessário explicar o conteúdo dos ritos aos seus seguidores “de fora”, pois para compreendê-los era necessária erudição. Na China, sempre houve uma atitude especial em relação aos estudiosos, que formavam, por assim dizer, uma elite natural, detentora de conhecimentos inacessíveis aos não iniciados. À elite, ou seja, aos estudiosos, cabia estudar a herança dos antigos, pois estes “conheciam o sentido de todas as coisas”, e a tarefa do estudioso consistia apenas em penetrar nesse sentido. No entanto, nem sempre lhes era possível desvendar esse conteúdo secreto nos livros antigos, em primeiro lugar porque, com frequência, ele simplesmente não estava lá (lembremo-nos das palavras de Iu. K. Shchútski sobre o I Ching). E então — e aqui está o seu mérito — eles se sentavam para escrever mais um comentário, inserindo neles o seu próprio conteúdo…
Os textos de Confúcio foram recentemente publicados pela primeira vez em russo. Embora a linguagem da tradução em alguns trechos seja truncada, os interessados podem recorrer ao almanaque Rubéj n.º 1/92, pp. 259-310. Há também um livro sobre Confúcio de Vladimir Malyavin, publicado na série “Vidas de Personalidades Notáveis” (M., “Molodaia Gvardia”, 1992).
O ritual ajuda a direcionar os esforços da consciência e do subconsciente para o caminho certo. Ele é necessário para os incapazes, os inexperientes e os iniciantes. Quem sabe controlar os esforços de sua consciência e subconsciente não precisa de ritual.
Lembra-se da parábola do urso branco? Um xamã chegou até o doente e disse: “Eu te curarei, mas não pense no urso branco.” Desde então, o doente não conseguia pensar em nada além do urso branco. Um caso clássico de incapacidade de controlar nem a consciência nem o subconsciente. Para os que não sabem, o meio mais simples de “não pensar no urso branco” é recorrer ao ritual: começar imediatamente a recitar mantras, orações ou poemas, que sempre possuem propriedades mágicas. Quem consegue desejar o suficiente para esquecer o urso branco.
Taoismo
O taoismo já é, em muito maior medida, uma doutrina para esotéricos. O texto do Tao Te Ching dirige-se justamente àqueles que gostariam de ingressar na pequena elite dos que “sabem” e “são capazes”. Claro, isso não é dito abertamente: o autor (Lao Tsé) simplesmente expressa pesar pelo fato de que poucos se dão ao trabalho de compreender suas palavras, embora o conteúdo delas seja simples.
Os rituais religiosos dos taoistas, que modelam a concepção e o nascimento da alma, eram abertos a muitos, mas poucos conseguiam penetrar em seu verdadeiro conteúdo — a “alquimia interna” (Nei Dan), sobre a qual escreve, de forma detalhada e sensata, por exemplo, Lu K’uan Yu — nome russo de E. A. Torchinov: Alquimia Taoísta e Imortalidade. S. Petersburgo, “ORIS”, 1993. O próprio livro de Torchinov sobre taoismo — S. Petersburgo, 1993 — é dedicado mais a questões religiosas do que filosóficas.
A essência filosófica da questão é a seguinte. Ao taoismo a humanidade deve a formulação de dois princípios fundamentais: o Caminho do Conhecimento e a Não-Ação. O que é o Caminho do Conhecimento (Tao), nós já temos uma ideia mais ou menos clara: é o reconhecimento do visível e do invisível, do descritível e do indizível. Se sobre o descritível podemos e devemos falar, sobre o indizível é melhor calar: assim será mais compreensível. A Não-Ação (Wu Wei), por sua vez, é o mesmo princípio de não perturbar o equilíbrio cósmico, que diz: não faça nada em excesso!
Esses princípios esotéricos mais importantes, como ainda veremos, estão presentes, de uma forma ou de outra, em todas as religiões e filosofias, mas apenas o taoismo os revelou com tamanha clareza e simplicidade. É verdade que compreender essa simplicidade é muito difícil; daí decorrem o não entendimento ou a incompreensão parcial desses princípios pelos “taoistas” do Ocidente, em primeiro lugar, e o não entendimento dos taoistas pelos não-taoistas, em segundo…
O Tao Te Ching foi publicado em russo várias vezes. Dos cinco ou seis traduções disponíveis, duas merecem atenção: a tradução científica de Ian Hin-chun (M., Academia de Ciências da URSS, 1950) e a tradução poética de V. Perelêchin (M., “KONEK”, 1994). A primeira é boa pela meticulosidade na transmissão de todos os matizes de significado e pelo rico aparato de referências, mas é pouco acessível; a segunda, como o original, é uma obra literária de fato e “alcança o objetivo da comunicação” como os livros sagrados.
Zen-budismo
Quanto ao budismo, na China e no Extremo Oriente ele teve um destino especial. Para os taoistas, o chamado de Buda Shakyamuni ao desapego de tudo o que é mundano era irrelevante, pois eles já haviam deixado o mundo. Mas a doutrina da identificação do sujeito e do objeto como meio de conhecimento do mundo, bem como a da karma e dos ciclos de reencarnações, que culminam na união com o Absoluto, deu novo impulso ao desenvolvimento da cosmovisão chinesa.
Nesse caso, trata-se da ressonância e do descompasso de dois arquétipos: o chinês (Vênus, Touro-Balança) e o indiano (Peixes, ao menos naquela parte da Índia que faz fronteira com a China e o Tibete). De um lado, houve uma fecundação mútua (Peixes — lugar de elevação de Vênus), de outro, uma reelaboração quase total das categorias da filosofia indiana, que não tinham equivalentes no quadro chinês de mundo.
A ideia budista de subordinação do “Eu” individual ao Absoluto, multiplicada pela concepção chinesa já desenvolvida de equilíbrio cósmico, gerou o zen-budismo — uma filosofia puramente esotérica e até mística, na qual a unidade do macrocosmo e do microcosmo é compreendida pela identidade do objeto cognoscível e do sujeito cognoscente: o Universo inteiro está contido na consciência individual ou, mais precisamente, no subconsciente, simplesmente se acomoda nele e se torna idêntico a ele, e a diferença entre eles torna-se irrelevante.
A identificação é, de fato, um meio muito conveniente de conhecimento do mundo (filosofia esotérica) e também de influência sobre ele (magia), genial em sua simplicidade de princípio, mas incrivelmente difícil em sua aplicação prática, sobretudo para o homem ocidental.
De fato, o que há de mais simples: se quiser conhecer uma pedra, identifique-se com ela; se quiser conhecer as leis da estrutura do mundo, identifique-se com elas, e assim por diante. Se quiser que a adaga do inimigo o atinja, identifique-se com a adaga. Esse princípio, aliás, é a base de muitas artes marciais orientais.
Pois bem, mas como fazer isso? Para uma pessoa comum, sobretudo um europeu, é muito difícil identificar-se completamente com alguém ou, pior ainda, com algo: atrapalha a barreira invisível que separa sua preciosa individualidade do mundo exterior. Só quando ele, como ensinam os budistas, deixa de considerar essa individualidade valiosa (subordinação do “Eu” individual ao Absoluto), consegue superar essa barreira.
Os próprios chineses (bem como japoneses e outros povos do Leste Asiático) recorrem à experiência espiritual de Buda Gautama: se ele conseguiu, então vocês também conseguirão. Afinal, os meios que ele usou são conhecidos.
A ferramenta mais importante entre eles é a meditação. A própria palavra “zen” é a transcrição japonesa de dhyana sânscrito — meditação (por meio do chinês chan, que significa a mesma coisa).
Daí tudo fica muito simples: meditação mais a consciência da lei do equilíbrio do macrocosmo (carma mundial) proporciona o primeiro grau de conhecimento do infinito — “renúncia ao ódio”, como diz D. Suzuki. Meditação mais a consciência do carma como lei de equilíbrio do microcosmo (carma individual) é o segundo grau, “obediência ao carma”. Meditação mais wu-wei (princípio da não-ação) proporciona “ausência de desejos”, o terceiro grau de conhecimento. E, por fim, meditação mais a consciência do dharma como lei teleológica (propósito) de sua existência — esse é o quarto grau, chamado por Suzuki de “obediência ao dharma”.
Daisetz Suzuki (1870-1966), japonês, maior teórico do zen-budismo. Lecionou em universidades da Europa e da América, escreveu mais de 90 livros. Graças a ele, os esotéricos ocidentais — aqueles que se dedicaram a esse estudo, é claro — puderam se aproximar do entendimento do zen-budismo. Seus livros agora são publicados aqui também (Suzuki D. Fundamentos do zen-budismo. Bishkek, “Odissey”, 1993, ou: A ciência do zen. Kiev, 1992).
Às vezes se diz que o zen é um ensinamento secreto transmitido pelo Buda Gautama apenas aos discípulos mais próximos. Na realidade, nele não há nada de secreto, é apenas uma visão natural do mundo. A mesma visão da qual falamos o tempo todo, aliás, em sua forma mais simples e pura. Como disse um dos mestres zen, citado por Suzuki: “O ensinamento de todos os Budas está contido desde o início em nossa própria mente”.
Ele pressupõe, sobretudo, o trabalho do espírito, ou melhor, o equilíbrio do espírito que não é perturbado por quaisquer fatores externos. A meditação e outros exercícios são necessários apenas aos iniciantes para acostumar a mente a abstrair-se de todos os obstáculos. Geralmente, às pessoas com menos de 30 anos, antes do término do ciclo de Saturno, que marca um novo patamar de conhecimento, essa capacidade de abstração é difícil: há muitas tentações. Depois, no entanto, ela costuma vir naturalmente, mesmo não necessariamente sob o signo do budismo.
Lamaísmo
No final do século XIV e início do XV, o monge e filósofo tibetano Tsongkhapa decidiu reformar a seita budista kadampa, existente desde o século XI, com o desejo de retornar ao “ensinamento original”, como ele mesmo o compreendia, e também elevar a autoridade dos monges (lamas). A teoria do lamaísmo é exposta em uma coleção de 108 volumes chamada “Ganjur”.
O lamaísmo, como forma do budismo tibetano, dedica muito mais atenção aos atributos externos e secundários do ensinamento. A ideia em sua forma pura pareceu aos lamaístas, assim como aos taoístas, demasiado simples, pois requer não apenas tempo — uma era —, mas também tempo de lazer. Quantos momentos de lazer têm os pastores do Tibete e da Mongólia?
Daí, em primeiro lugar, o fortalecimento do clero como um grupo especial de pessoas responsáveis pela salvação de si mesmos e dos outros.
Daí também a “hereditariedade” do posto do grande lama — certamente muitos de vocês leram as revelações do dalai-lama exilado Lobsang Rambo (O terceiro olho. L., 1991) — e o desenvolvimento minucioso de exercícios meditativos de diversos tipos: alcançar a catatonia, levitação, viagens astrais, além de uma astrologia extremamente detalhada, que considera muito mais fatores do que, por exemplo, a chinesa ou mesmo a indiana; e, por fim, a famosa medicina tibetana, cujo desenvolvimento pode ser invejado pelos médicos modernos — lembrem-se dos livros de Badmaev e Pozdneyev, do tratado Chzhud Shi e outros, que incluem a mais rica nomenclatura de plantas medicinais, diagnóstico por pulso, consideração de parâmetros astrológicos do mapa natal e da situação atual. No entanto, tudo isso é ensinado apenas aos monges.
O budismo mahayana, inclusive o zen-budismo na China e no Japão, pressupõe, acima de tudo, a abertura desse caminho, sua acessibilidade a todos e a cada um que se dispuser a se dedicar a ele. No Tibete, porém, o budismo é mais do tipo hinayana, que reserva essa possibilidade apenas aos iniciados. Além disso, o lamaísmo, embora tenha origem no budismo, cresceu no solo das antigas religiões locais, desde o animismo com totemismo em povos completamente selvagens até a famosa religião bön, também chamada bön-po.
A própria palavra vem do verbo ‘bod pa, que significa “invocar deuses, chamar espíritos”. Esse é um culto animista pré-budista de divindades, espíritos e forças da natureza.
Assim, enquanto o budismo em geral e o zen-budismo em particular pressupõem a máxima generalização, ou seja, têm caráter de filosofia esotérica em seu sentido moderno, o budismo tibetano (lamaísmo) é um ensinamento particular, especial, de caráter principalmente aplicado, ou seja, mágico. No entanto, sobre magia falaremos mais tarde. Het Monster. História das doutrinas esotéricas. Aula 5. Índia e Pérsia.
Índia
Apesar de toda a riqueza e diversidade de sistemas filosóficos, escolas, ensinamentos, tradições e direções existentes na Índia, apesar de toda a quantidade de suas línguas, castas, religiões e seitas, ainda podemos falar sobre o fenômeno do pensamento indiano ou mesmo indo-iraniano, porque, na base de todas as variantes acima mencionadas, está a mesma concepção de mundo, formada ainda na virada das eras de Touro e Áries e tão perfeita e autossuficiente que quaisquer inovações importantes posteriores, quer surgissem dentro da cultura indiana, como o budismo, quer fossem trazidas de fora, como o cristianismo, eram simplesmente rejeitadas como supérfluas ou “digeridas”, sendo rebaixadas a meros detalhes de um ensinamento único e indivisível.
Resumidamente, a história do desenvolvimento desse ensinamento ou, mais precisamente, desse pensamento é a seguinte. Sua origem remonta à era de Touro — já conhecemos o postulado “o mundo é perfeito e não há o que mudar” —, mas suas formas atuais só foram adquiridas no início da era de Áries, após a invasão dos indo-arianos (“os brancos deslocam os negros”, lembrem-se da teoria das Sete Raças). Os fardos dessa era de conquistas acrescentaram à referida máxima uma segunda parte: “O homem é imperfeito e deve se transformar”. Nesse espírito foram compostos os primeiros esboços dos Vedas. O fim da era de Áries, época da consolidação final dos livros sagrados e do surgimento do ensinamento sobre a Salvação (VI-III séculos a.C.) sob a influência da era de Peixes, acrescentou à fórmula uma terceira parte: “A transformação é a chave da Salvação”. Assim, até o século III a.C., essa concepção de mundo já estava completamente formada e não podia mais ser contestada, pois essa fórmula revelou-se tão abrangente que todos os ensinamentos mais jovens (zoroastrismo, budismo, cristianismo, islamismo etc.) ou eram cobertos e superados por ela como um grande chapéu, ou eram rejeitados como tolos e primitivos (se, por exemplo, propunham mudar não o homem, mas o mundo e sua estrutura). O sentido esotérico dessa fórmula é óbvio e não requer comentários.
Espera-se que, durante a transição da era de Peixes para a era de Aquário, essa fórmula receba uma quarta parte, correspondente ao espírito da nova época.
Repito mais uma vez que me refiro aqui apenas à parte esotérica, ou seja, superior, capaz das maiores generalizações, da consciência pública e individual: basta descer um degrau abaixo, para o nível da “simples” filosofia ou religião, para que comecem imediatamente as disputas e contradições: o mundo existe ou é apenas ilusão, qual deus é o principal etc. No entanto, é justamente o esoterismo onipresente das religiões e filosofias indianas que permite superar essas contradições, graças ao que os defensores dos pontos de vista mais opostos nunca recorriam a soluções com a espada na mão, mas reconheciam uns nos outros o direito de dar ao ensinamento universal formas particulares. Isso é o que muitos pesquisadores ocidentais da cultura indiana não conseguiam entender (ver, por exemplo: Chattopadhyaya D. História da filosofia indiana. M., “Progresso”, 1966).
Em que consiste a concepção do esoterismo indiano se desdobrarmos essa fórmula?
Já falamos sobre a cosmogonia dos povos antigos em geral e dos indianos em particular. “No início não havia nada”, ou seja, o caos. Depois, nesse caos, começou a se formar uma certa estrutura, da qual surgiu o Ovo Cósmico — o germe do Universo (Mitologia da Índia Antiga. Apresentação literária de V.G. Erman e E.M. Temkina. M., “Ciência”, 1975). Se abordarmos isso do ponto de vista numerológico (ainda mais porque os algarismos “árabes”, que usamos, têm origem indiana), o caos corresponde obviamente ao “zero”.
No entanto, o que deve ser considerado como unidade — o Ovo Cósmico? Mas ele já é dual, pois nele estão presentes o centro e a periferia, a ” gema ” e a ” clara “. No entanto, o ovo ainda não é o Universo, pois ele é inanimado até ser fertilizado. E a fertilização — mais uma vez, é uma unidade; lembrem-se do pitoresco mito sobre o lingam de Shiva que agita as águas cósmicas. Talvez seja mais simples supor que o zero (caos) também possua suas próprias, “estágios zero” de desenvolvimento?
A ideia de que o ovo se assemelha a um pequeno modelo do Sistema Solar ocorreu às pessoas ainda na antiguidade. Ao estudar o ovo, eles tiravam conclusões sobre a estrutura do Sistema Solar, e essas conclusões estavam corretas. Mas nós já sabemos que a relação entre essas duas estruturas não é causal (ou seja, não se pode dizer que uma seja a causa da outra), mas teleológica: em nosso Universo, tudo é organizado segundo as mesmas leis (ou seja, esses fenômenos têm uma única causa).
Essa imagem simples e, mais uma vez, abrangente da criação do mundo agradou muito aos europeus no final do século XIX, após o “descobrimento da Índia” pelos ingleses. O antigo problema de como entender as afirmações sobre os “seis dias da criação” parecia finalmente resolvido. E.P. Blavatsky desenvolveu detalhadamente o problema do “estado zero” do Universo, destacando três estágios de desenvolvimento do zero: o espaço abstrato único (caos sem qualquer estrutura), o símbolo: círculo (símbolo do Sol sem ponto), o espaço potencial dentro do abstrato (início da estrutura), o símbolo: Sol com ponto, e a mãe-natureza virginal (ovo), o símbolo: círculo com uma faixa horizontal.
Aqui surge também a interessante questão sobre o que exatamente provocou o surgimento da estrutura no caos. Os antigos indianos e, mais tarde, os teósofos explicavam isso pela ação de algum fator interno, imanente ao caos. Uma simples interpolação lógica nos leva à conclusão de que a identidade desse “fator de incerteza” é o conceito do Absoluto ou Deus, que é tudo e, acima de tudo, a própria natureza em todas as suas fases de desenvolvimento, inclusive as iniciais e anteriores.
Não é surpreendente que, aproximadamente na mesma época e não sem a influência dessas concepções indianas reelaboradas por teósofos, tenha surgido a ideia do “Big Bang” (Grande Explosão), que explicava algo na visão materialista do mundo dos físicos ocidentais, ou melhor, da cultura judaico-cristã. Toda a matéria do Universo, reunida em um ponto, é análoga ao “espaço potencial”, o segundo estágio do zero, e o Big Bang, o início da expansão do Universo, é o terceiro estágio, a “Natureza Inocente”. Sobre o primeiro estágio, ou seja, sobre o que existia ANTES do Big Bang, os físicos materialistas tinham dificuldade em falar, porque o conceito de “caos” não pode ser definido com rigor.
Enquanto isso, nós já devemos entender claramente que o fator que provocou o surgimento da estrutura no caos primordial, ou seja, que causou a diminuição da entropia do Universo, é mais “externo” do que “interno”, se olharmos a questão do ponto de vista dos teósofos e físicos, pois ele emana da consciência humana, e não do Universo: em suma, como pensamos, assim será — ou melhor, assim foi (will have been). Não é à toa que repito em cada palestra que a história é escrita retrospectivamente. O tempo é apenas uma das funções do Universo, ele não é linear (ou, pelo menos, nem sempre é linear, como veremos mais tarde), por isso nosso pensamento pode influenciar tanto o passado linear relativo quanto o futuro… Em suma, essa questão sobre a definição de caos, que também é a questão sobre o que existia antes do Big Bang, que também é a questão sobre a ilusoriedade ou realidade do Universo, torna-se puramente escolástica e perde todo o sentido para nós, semelhante à famosa pergunta sobre “quantos anjos cabem na ponta de um alfinete” — até encontrarmos a resposta para a pergunta sobre o que é a Verdade — a propósito, quem lembra o que diz respeito a isso no livro Tao Te Ching?
Da Verdade nasceu o Um,
Do Um surgiram Dois,
Dos Dois formaram-se Três,
Dos Três, todas as miríades de coisas.
Então, a Verdade é o caos?
Na realidade, é claro, isso é uma armadilha. Simplesmente, do ponto de vista dos antigos indianos (e dos esotéricos modernos), os conceitos de “externo” e “interno” aplicados ao fator que provocou a estruturação do caos também não fazem sentido, pois o homem está presente em Deus, assim como Deus está no homem…
A postulação da identidade entre Deus e o homem, de uma forma ou de outra, está presente em todas as religiões, como nós mesmos ainda teremos a oportunidade de verificar. Mas nós já nos desviamos demais do tema.
Vejam quantas ideias e associações um simples — à primeira vista — símbolo de uma antiga doutrina esotérica pode gerar. No entanto, a questão é que justamente essa doutrina constituiu uma das pedras angulares de nossa visão de mundo atual, pois todos aqueles que se chamam de europeus, americanos, árabes, turcos ou gregos, hindus, punjabis, sikhs e assim por diante, na verdade, pertencem inicialmente a uma mesma cultura, e apenas camadas posteriores e inovações levaram ao surgimento de inúmeras doutrinas divergentes, cada uma das quais agarrou-se primeiro à espada para provar sua verdade.
A tolerância e a pacificidade dos indianos, explicadas em grande parte pelo princípio yin, lunar-venéreo de sua cultura (não é à toa que até a energia cósmica, chamada de chi ou qi no entendimento indiano, é considerada uma energia feminina — shakti), mais tarde lhes prestou um desserviço, não lhes permitindo erguer a espada contra os conquistadores, dos quais a história da Índia não careceu. No entanto, foi justamente essa tolerância e pacifismo, a recusa em usar a espada como meio de resolver disputas filosóficas, que criou um ambiente ideal para o florescimento de ideias esotéricas, religiosas e filosóficas sem qualquer restrição, que encontraram seus seguidores e continuadores muito além das fronteiras da Índia — ou seja, criaram aquilo que hoje chamamos de pluralismo.
Por isso, para os próprios indianos, em princípio, era indiferente como numerar os estágios do desenvolvimento do mundo. Eles não tinham uma atitude tão rigorosa e solene em relação à simbologia dos números como os chineses ou Pitágoras. No entanto, a própria simbologia era, em princípio, a mesma: o mundo é dividido em três “andares” na vertical — primeiro, céu, ar e terra; depois, Goloka (paraíso), terra e o reino subterrâneo (Naraka) — e em quatro direções do mundo (que também são os quatro elementos, as quatro estações do ano, etc.).
Daí — inúmeras tríades e ainda mais tetradas (“quartetos”): Trimurti — a tríade de deuses Brama (criador), Vixnu (preservador) e Shiva (destruidor), Trikarman — as três principais obrigações do brâmane (sacrifício, estudo dos Vedas e caridade), Tripitaka — os três “cestos”, ou seja, coleções do cânone budista: regras monásticas, ensinamentos na fé e doutrina religiosa, e assim por diante; a tetrada dá a quatro braços e quatro faces a muitas divindades, os quatro Vedas — Rigveda (veda dos hinos), Samaveda (veda das canções), Yajurveda (veda dos versos sacrificiais) e Atharvaveda (veda dos encantamentos), os quatro objetivos da vida humana (purusharthas) — dharma, artha, kama e moksha, sobre os quais falaremos mais adiante, e os quatro estágios de vida (ásramas) a eles relacionados — estudante, chefe de família, eremita e santo, as quatro eras-yuga, as quatro nobres verdades do budismo, etc.
Destas, para nós, no sentido conceitual, são importantes os quatro purusharthas, pois deles é composta a karma.
Antes de tudo, gostaria de dissipar um erro muito comum. A palavra “karma” hoje é usada para designar tudo o que se possa imaginar: hereditariedade, “dívidas” que nos restam de vidas passadas, dharma (papel), moksha (serviço), e até mesmo kismet… Na maioria das vezes, justamente kismet, ou seja, o destino, a sorte (do árabe qisma — quinhão), que tem significado apenas para esta encarnação e não está de forma alguma ligado a encarnações passadas ou futuras.
Enquanto isso, karma é um conceito filosófico abstrato aplicado ao cotidiano com a mesma precisão com que o conceito de “matéria” é aplicado à mesa em que almoçamos. No hinduísmo, trata-se da causalidade geral, semelhante ao conceito europeu-grego de “telos” (causa final), por isso a relação causal comum, para a qual se pressupõe a irreversibilidade no tempo (primeiro sempre vem a causa, depois o efeito), não se aplica à esfera do karma.
No budismo e no taoísmo, esta é uma lei impessoal de equilíbrio universal, que sempre busca a autorregeneração. O ser humano pode violá-la em algum ponto; o mundo não desmoronará por isso, mas a pessoa, como se diz, sofrerá as consequências, pois o equilíbrio buscará se restabelecer, e ela pagará pelo seu ato de violação. (Na mitologia mundial, há apenas um caso descrito de violação tão profunda desse equilíbrio a ponto de o mundo realmente “desmoronar”, mas isso não foi feito por um ser humano).
Dharma (sânsc.): dívida, lei, ordem da vida. “O dharma do fogo é queimar, o dharma do tigre é ser cruel…” (D. Redya). Na astrologia indiana, as casas que indicam o dharma de uma pessoa são a I, V e IX.
ARTHA (sânsc. “meta”): atividade pública voltada para a aquisição de benefícios e riqueza. Na astrologia, as casas de artha são a II, VI e X. No zoroastrismo — Arta ou Asha (Asha-Vahishta), “A Melhor Verdade”, arquétipo celeste de ordem e harmonia.
KAMA (sânsc.): amor, desejos sensuais e paixões. Na astrologia indiana, as casas de kama são a III, VII e XI.
MOKSHA (sânsc.): salvação da alma, libertação das amarras do mundo material, um dos aspectos mais importantes da vida humana e de seus objetivos na filosofia indiana. Na astrologia indiana, as casas de moksha são a IV, VIII e XII.
Os números cinco, sete e nove, como “estruturas portantes”, são encontrados com muito menos frequência. A Índia, em geral, tende mais para números pares. O seis é muito popular, e o oito, um pouco menos. Sobre o seis indiano (hexagrama), já falamos na palestra anterior:
Shiva (mente)
Lakshmi _ _ _/_ _ _ Saraswati (tato) / / (ouvido) / / Brahma /_ _ _ _ _ _ Vishnu (visão) / (paladar)
Kali (olfato)
Ao seis está ligado também o sistema de chakras, chamado em sânscrito de “shat-chakra nirupana”, ou seja, “sistema dos seis chakras”, que descreve todo o panorama indiano do mundo. Trata-se de um esquema da estrutura do microcosmo e do macrocosmo, que fundamenta todas as doutrinas “indogênicas” — antigas e modernas.
CHAKRA (Chakra, sânsc. “círculo, disco”): órgão do corpo astral (ou etéreo) humano, “transformador de energia vital”. Na tradição indiana, há seis chakras principais mais um superior, o sahasrara. Os seis chakras principais estão localizados não no (ou no) corpo físico, mas no corpo etéreo, considerado portador de informações sobre o físico e outros corpos.
Cada chakra possui propriedades específicas que se manifestam em todos os níveis, ou seja, em todos os corpos. A cada chakra também está associado um deus ou aspecto divino, um elemento, uma mantra e uma shakti. A mantra, como você deve lembrar, é um breve encantamento ou oração; shakti, neste caso, é a deusa feminina, uma das personificações da energia cósmica shakti.
Cada chakra também tem seu próprio símbolo ou sinal, acompanhado de uma decodificação complexa e inclui várias letras do alfabeto devanagari. Os seis chakras abrangem todas as 50 letras do alfabeto; o sétimo, o mais elevado — o lótus de mil pétalas — inclui cada letra em 20 repetições. Os chakras clássicos são (enumeração de baixo para cima):
1. Muladhara — ao nível do cóccix. Lótus de quatro pétalas. É Brahma manifestado na deusa do amor, Kama. O chakra inferior, cuja ativação desperta o canal da kundalini (do sânsc. kundali — “serpente”, que na Índia servia de símbolo de beleza e força). Por esse canal, a energia vital (Shakti) ascende para as regiões superiores da consciência humana, até que, finalmente, os símbolos dos princípios masculino e feminino, Shiva e Shakti, se unam no êxtase cósmico. O yoga “integral” moderno trabalha com exercícios voltados para bombear essa energia de baixo para cima e de cima para baixo. Elemento — terra.
2. Svadhisthana — apenas ao nível do púbis. Lótus de seis pétalas. Vishnu. Elemento — água.
3. Manipura — ao nível do plexo solar. Lótus de dez pétalas. Shiva manifestado na imagem do deus jupiteriano Rudra, senhor dos trovões. Elemento — fogo.
4. Anahata — entre os mamilos. Lótus de doze pétalas. Shiva-Harikodra (Shiva na imagem de Vishnu e vice-versa). Elemento — ar.
5. Vishuddha — ao nível da glândula tireoide. Lótus de dezesseis pétalas. Sada Shiva (Shiva-Ardhanarishvara, ou seja, andrógino). Elemento — akasha (éter, força criadora).
6. Ajna — um pouco acima da sobrancelha. Lótus de duas pétalas. Param-Shiva (Shiva Supremo). Elemento — linguagem imaginária, não articulada (manas).
7. Sahasrara — acima do topo da cabeça. Lótus de mil pétalas. Morada da consciência pura de Shiva, fusão da mente individual e universal, dos princípios masculino e feminino.Hoje em dia, os esotéricos trabalham não apenas com os chakras clássicos, mas também com alguns adicionais — como a Ajnasara, Dvadashara (Manas-chakra), Lalana e Soma-chakra, entre outros. Para mais detalhes, consulte: Woodroffe, John. The Serpent Power. Madras, 1918, 1958; Rajneesh, Bhagwan Shri. Meditação: a arte do êxtase interior. Rajneesh Foundation, Poona, 1977; Kaptein, Y.L. Fundamentos da meditação. São Petersburgo, “Andreyev i syny”, 1991.
A concepção de “fechamento espaço-temporal do mundo”, de ciclicidade de todas as suas manifestações, remonta, como já dissemos, ao “pensamento taurino”, ou seja, ao pensamento da era de Touro, cujos elementos ainda persistem na cultura indiana. A expressão dessa concepção é a mandala — símbolo do eterno ciclo de tempos e eventos, do ano solar, das encarnações e reencarnações, um modelo do universo representado na forma de um círculo com um quadrado ou cruz inscritos, que denotam os pontos cardeais.
Aliás, pela mesma palavra também são designadas as “rodas”, ou seja, as divisões do Rigveda, bem como outros círculos — por exemplo, o círculo celeste do Zodíaco e tudo o que a ele se relaciona. Assim, no trabalho do conhecido astrólogo e filósofo esotérico Dane Rudhyar, intitulado “Mandala Astrológica”, são apresentadas descrições imagéticas das propriedades de cada um dos 360 graus do Zodíaco.
Assim, após uma breve familiarização com os fundamentos da doutrina esotérica indiana, passemos a examinar as etapas de seu desenvolvimento.
A “religião natural” do vedantismo, até meados da era de Áries (VI-III a.C.), foi substituída pelo bramanismo, que desenvolveu a doutrina da alma universal (Brahman), do carma e da reencarnação. Foi também nessa época que se formou o sistema de castas, que criou um tipo de “espinha dorsal” em uma sociedade indiana anteriormente amorfa (venérea-lunar). Esse sistema garantia o caráter esotérico (ou seja, inacessível aos não iniciados) dos conhecimentos dos Vedas e dos graus superiores de autoperfeiçoamento para mulheres e membros das castas inferiores. Apenas um brâmane podia se tornar e era obrigado a se tornar um sannyasi (santo). Leis de Manu. Moscou, “Nauka”, 1962; reeditado em 1992.
Até o final da era de Áries, o bramanismo se dividiu em seis doutrinas ortodoxas e inúmeras não ortodoxas:
— vedanta: apenas o Brahman (alma universal) possui existência verdadeira; tudo o mais é manifestação da ilusão divina (maya); exposto no “Brahma-sutra” de Badarayana;
— mimansa: apenas o mundo real possui existência verdadeira; não há alma universal; o mundo é governado pelo carma e pela razão cognoscível;
(e pode-se discutir infinitamente se nosso mundo é ilusão ou não, apresentando inúmeras provas, mas ao verdadeiro filósofo-esotérico está claro que tanto uns quanto outros têm razão, pois não há diferença entre ilusão e não-ilusão, não há fronteira entre o mundo visível e o invisível — ou, mais precisamente, essa diferença é irrelevante, essa fronteira é transponível; como lembramos, essa ideia foi levada ao extremo no zen-budismo, mas outras filosofias também ensinaram a superá-la, cada uma à sua maneira…)
— sankhya: doutrina do sofrimento e da libertação dele;
— yoga: derivada do sankhya, doutrina do aperfeiçoamento do corpo e do espírito. Divide-se em oito estágios (angas):
yama] niyama] asana] kriya yoga pranayama] pratyahara]
dharana] dhyana] raja yoga samadhi]
Para mais detalhes, consulte, por exemplo: “Yoga Sutras” de Patanjali e “Vyasa-bhashya”. Trad. e coment. de E. Ostrovskaya e V. Rudogo. Moscou, “Nauka”, 1992;
Sobre o yoga e sua aplicabilidade em nosso “Ocidente”, citamos o doutor Friedrich Feerhoff — “Astrologia como base da terapia”, trechos publicados na revista “Ciência e Religião”, Nº 1/94:
O próprio fato de a influência cada vez maior da grande doutrina do yoga sobre o desenvolvimento dos povos do Ocidente parecer muito encorajador no sentido de que, por meio dela, a natureza espiritual superior do homem pode obter vitória sobre sua natureza inferior emocional e física. Tal é o único e verdadeiro objetivo de um verdadeiro iogue. No entanto, a natureza ocidental, propensa a todas as paixões, distorce com muita frequência esse conteúdo: ou começa a torturar seu corpo de forma cruel e infrutífera, desejando, por meio da ascese, transformar a orientação egoísta de suas forças psíquicas, ou tenta usar suas habilidades psíquicas para o fortalecimento físico do organismo. Por enquanto, a prática de exercícios respiratórios serve apenas para a saúde e o fortalecimento do corpo, a fim de torná-lo mais obediente ao espírito; isso pode ser considerado inteiramente justificado. No entanto, na maioria dos casos, predominam outras motivações — uma curiosidade imatura e perigosa em relação a experiências suprassensíveis, um desejo audacioso de poder psíquico e mágico, etc. Nesses casos, a catástrofe é inevitável: a pressa desmedida nos centros psíquicos e nervosos é vingada, seguindo-se a sobrecarga, distúrbios nervosos e doenças, depressões, psicoses; no melhor dos casos, tudo termina em exaltação e “quebra”. /…/ A experiência mostra que os mesmos exercícios psíquicos que terminam em brilhante sucesso para o homem oriental (por exemplo, o indiano ou o persa) podem ser literalmente destrutivos para o europeu. A causa disso é a diferença na constituição inata de raças individuais, determinada por seu desenvolvimento histórico; o organismo do europeu, em muitos casos, simplesmente se recusa a suportar tais exercícios, como as técnicas de “Tattva” ou exercícios respiratórios profundos. /…/ Os indianos viveram por milênios em um clima e condições específicas, em muitos aspectos diametralmente opostos aos nossos. Eles desenvolveram um certo tipo de pensamento, elevado à sua maneira, mas que, em última análise, influencia de maneiras diferentes os tipos individuais. Portanto, é inútil para nós tentarmos seguir o caminho deles, embora ele leve ao topo do conhecimento oculto, mas que é tão inaceitável para os povos do Ocidente quanto uma dieta de aveia para um leão.
— e, por fim, o vaiséshika e o nyaya (ástika-nyaya): sistemas escolásticos que tentavam enquadrar todas as concepções antigas e novas em esquemas rígidos, o que, é claro, não é tão simples de fazer. Esses esquemas, de uma forma ou de outra, remontam ao shat-chakra nirupana, acrescidos apenas de alguns detalhes. Detalhes podem ser encontrados em qualquer livro sobre filosofia indiana.
Essas doutrinas foram como que “adotadas” pela família das filosofias indianas, já que não reivindicavam importância ou papel religioso. As doutrinas que reivindicavam algo mais, ou seja, que deram origem a novas religiões ou seitas, são consideradas “não ortodoxas”, ou seja, estão além dos limites da doutrina oficial.
Primeiro, temos o TANTRISMO (do sânscrito tantra — “segredo, magia”): uma série de seitas e escolas com rituais especiais que remontam aos antigos cultos de fertilidade. O que as distingue, acima de tudo, é o caráter esotérico dos rituais, a incompatibilidade com o ritual bramânico, e a concepção dos princípios energéticos masculino e feminino. A relação sexual era vista como um ato místico, por meio do qual ambos os parceiros adquiriam uma parte da energia cósmica (shakti). Muitos elementos do tantrismo foram adotados pelo lamaismo, sobre o qual falamos na palestra anterior.
Em seguida, temos, é claro, o BUDISMO em suas formas primitivas, a doutrina do príncipe Gautama. O budismo desenvolveu a doutrina do samsara, ou seja, do ciclo de nossa vida comum, incluindo reencarnações e nascimentos repetidos, inevitavelmente ligados ao sofrimento, e do nirvana, ou seja, do “apagamento da sede”, do abandono das alegrias deste mundo, do fim do ciclo de sofrimentos e da união com o absoluto.
Essa doutrina foi formulada na forma das “quatro nobres verdades”: 1) tudo é sofrimento; 2) o sofrimento tem uma causa; 3) o sofrimento pode ser cessado; 4) existe um caminho que leva ao fim do sofrimento.
Esse caminho, por sua vez, incluía quatro estágios de meditação ou “graus de imersão religiosa”. Os adeptos que dominaram esses estágios ou graus, que passaram por um ciclo sucessivo de vida (áshramas, ver acima), também são divididos em diferentes “níveis” de santidade (ver, por exemplo, Pischel R. Buda, sua vida e doutrina. Moscou, 1911, reimpressão 1991).
Nesse processo, do arsenal místico budista, foi removida toda a gama de crenças tradicionais indianas, que incluíam a adoração de inúmeras divindades e suas hipóstases, bem como a própria personalidade humana como participante de qualquer processo mundial, pois a condição mais importante para a transição ao nirvana (Salvação) era considerada a renúncia a qualquer atividade resultante (o mesmo princípio de não-ação). Isso, no entanto, contradizia o sistema de castas, que exigia de cada membro da sociedade ações específicas e plenamente eficazes.
No entanto, do ponto de vista esotérico, o budismo representou um passo adiante, pois o conhecimento das leis do mundo visível e invisível realmente requer a renúncia à interferência no funcionamento dessas leis (o conhecido postulado sobre a influência do experimentador no curso do experimento). Portanto, no solo tradicional indiano, o budismo não se difundiu amplamente e, no início da era de Peixes, foi suplantado pelo hinduísmo — a forma mais recente da antiga religião indiana, embora tenha dado origem a inúmeras variações na periferia do território indiano.
Antes disso, ele se dividiu em duas grandes direções: mahayana e hinayana.
Mahayana (sânscrito “Grande Veículo”): a maior direção do budismo, o “Grande Caminho da Salvação”, difundido na Índia, China, Coreia e Japão. Ao contrário do Hinayana, acredita que a Salvação pode ser alcançada por qualquer pessoa que siga os ensinamentos do Buda Shakyamuni e viva em amor ao próximo. Tem um caráter mais esotérico do que o Hinayana.
Hinayana (sânscrito Hinayana, “Pequeno Veículo”): a “Pequena Via da Salvação”, uma direção menor no budismo, tradicionalmente considerada mais antiga. Difundida em Mianmar, Tailândia e Sri Lanka. No Hinayana, Buda é uma personalidade histórica, um exemplo a ser seguido, e não um Salvador, pois ninguém pode ajudar ninguém a se purificar ou se libertar. Para alcançar a verdade, o ascetismo é considerado praticamente obrigatório. Isso significa que apenas poucos podem alcançar a Salvação.
O jainismo, que inicialmente representava uma das seitas do budismo, hoje é uma religião independente. Tradicionalmente, seu primeiro “profeta” é considerado Mahavira, contemporâneo mais velho de Buda; no entanto, suas raízes remontam a crenças antigas e totêmicas dos habitantes da Índia (semelhantes ao lamaismo, que incorporou elementos da antiga religião tibetana bön). Do ponto de vista esotérico, o jainismo, talvez, expressou da forma mais completa a ideia da relatividade de quaisquer definições humanas dadas aos fenômenos do macrocosmo e microcosmo, reconhecendo que qualquer coisa existe e não existe ao mesmo tempo; a questão é apenas o que se entende por isso.Além disso, o jainismo considera o conhecimento perfeito e a bem-aventurança suprema atributos indispensáveis de qualquer alma (indivíduo), e a ausência de ambos em cada caso individual é resultado da violação da karma pelo indivíduo. O objetivo supremo dos jainistas era a libertação do fardo da karma por meio do ascetismo, cujo elemento mais importante era a não-violência (ahimsa).
Pérsia
A religião dos parsis, ancestrais dos habitantes do Irã, também tem raízes muito antigas, ou seja, remonta aos primeiros cultos indo-iranianos animistas e totêmicos. Os antigos parsis veneravam os elementos e suas personificações — fogo, água, pedra, vento — faziam sacrifícios e adoravam divindades solares e lunares.
O fogo é considerado a mais poderosa, e em algumas teorias, a mais antiga das forças elementares. O fogo purificador, esse cabalístico Esh-Mezaref, melhor atende ao propósito da Salvação, pois liberta da impureza. Portanto, o zoroastrismo, que substituiu o puro culto aos elementos e ao fogo, não conseguiu abandonar o culto ao fogo.
O ZOROASTRISMO como doutrina de Zoroastro (não entraremos em detalhes sobre a questão da personalidade de Zoroastro e o período de sua vida) formou-se até o final da era de Áries, ou seja, até os séculos VI-V a.C. De qualquer forma, já estava difundido no Estado do rei persa Ciro (558-529 a.C.), e os judeus, que na época estavam cativos em Babilônia conquistada por Ciro, conseguiram assimilar algo da filosofia religiosa do zoroastrismo. É também desse período que data a redação dos primeiros textos da “Avesta”.
Na Biblioteca Estatal (antiga Biblioteca Lenin), há uma edição da “Avesta” em alemão: Avesta. Die heiligen Buecher der Parsen. Berlim-Leipzig: Verlag De Gruyter, 1924. Em russo, esses textos ainda não foram publicados. Na verdade, eles não se preservaram integralmente: das 21 obras que existiam na época dos Sassânidas, ou seja, na Idade Média, apenas quatro chegaram até nós, e delas apenas uma (o Vendidad) sem lacunas ou perdas. Há, no entanto, uma tradução de hinos selecionados: Steblin-Kamensky I.M. Avesta. Hinos selecionados do Videvdat. Moscou, 1993.
Há muitas semelhanças na visão de mundo iraniana com as concepções dos antigos indianos — suas raízes são comuns. E, embora as funções das divindades e outros elementos da mitologia entre os parsis muitas vezes sejam diametralmente opostas em comparação com os indianos, a afinidade de seus nomes e denominações é evidente.
Compare: sânsc. artha e avest. aša — lei da necessidade cósmica; sânsc. Yama e avest. Yima — deus do mundo subterrâneo; mas sânsc. Deva — “deus” e avest. “daeva” — espírito maligno, força destrutiva (cf. georg. divi).
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A sociedade e a cultura iniciais dos iranianos, ao contrário das indianas, apresentam um caráter marcadamente marciano (adoração ao fogo, guerras de conquista que não cessaram por séculos, “culto” à personalidade em vez de sua negação, etc., e, por fim, o Leão com espada e o Sol no brasão moderno do Irã), razão pela qual há muitas diferenças entre eles. Sem examinar todos os detalhes, destacaremos duas ideias importantes não apenas no aspecto dogmático, mas também filosófico; talvez tenham sido assimiladas pelos iranianos de tribos semíticas vizinhas ou até mesmo de povos do leste africano mais distantes: a ideia de purgatório e a ideia de graça.
Sem afirmar que essas duas ideias penetraram no Irã especificamente da África, lembrarei, no entanto, da amplamente difundida hipótese sobre a origem de todas as raças humanas justamente do continente africano (e, considerando a teoria das Sete Raças, do continente “negro” de Gondwana), além de citar o escritor iraniano Golamhosein Saedi: “A cultura suaíli influenciou mais do que qualquer outra os costumes e tradições da população da costa sul do Irã” — citado em: Jukov A.A. Cultura, língua e literatura suaíli. Leningrado, Universidade Estadual de Leningrado, 1983.
Purgatório, avest. chinvat (Chinvad), Chinvatô-Pereta, mais tarde Srat: uma ponte mágica, plana e estreita como uma lâmina. Somente aqueles que foram justos e serviram fielmente a Deus podem atravessá-la. Quando um pecador pisa na ponte, ela se transforma em uma lâmina afiada.
Purgatório (lat. Purgatorium): na mitologia monoteísta posterior, um lugar intermediário entre o paraíso e o inferno, a “primeira instância”, onde as almas dos mortos são julgadas segundo suas ações terrenas. Os primórdios da ideia de purgatório já existiam entre povos antigos (ver Campos Elísios, Bardo, Bifröst). O desenvolvimento do conceito de purgatório ocorreu na era de Peixes: a ponte Chinvat dos zoroastristas, que só permite a passagem dos justos, influenciou a ideia muçulmana de uma “ponte tão fina quanto um fio de cabelo” (a pessoa sozinha não consegue atravessá-la; deve ser transportada pelo camelo, carneiro ou burro que ofereceu a Alá em vida), bem como a concepção romano-católica do purgatório como um sacrifício purificador de fogo (alem. Fegefeuer). A disputa sobre o purgatório foi uma das causas da divisão da Igreja Universal em católica e ortodoxa (o Ortodoxismo não reconhece o purgatório).
Graça (greg. ‘h charisma, lat. gratia, hebr. BERACHA, ar. Baraka); os russos modernos muitas vezes a chamam de “blagost” (bondade), pois a antiga “blagodat” (graça) lhes parece mais associada ao “kayf” (prazer), mas o termo é técnico: trata-se do conceito esotérico mais importante, significando uma força divina especial enviada ao ser humano. É transmitida ao ser humano por emanação ou durante sacramentos (mistérios) por outros portadores de graça e pode ser retirada da mesma forma (pode-se lembrar do herói persa Afrasiab, privado da graça pela deusa devido a seus crimes, ou da privação de cargo e excomunhão na Igreja cristã, etc.).
No cristianismo, os padres ocidentais consideravam a graça a única condição para a Salvação, enquanto os orientais, ao lado dela, admitiam também o livre-arbítrio (pelagianos). Entre os zoroastristas, o farn (glória) é considerado uma emanação do fogo divino, uma “boa porção”, que garante tanto a recompensa na vida terrena — poder, riqueza — quanto a beracha (hebr. brokhu) entre os judeus. Entre os muçulmanos, os portadores da graça celestial (baraka) eram considerados os sufis e outros “pilares da fé” (aiatolás, xeiques).
O grego kharisma, que antigamente significava “dom dos deuses” (ou aos deuses — na forma de sacrifício), hoje é usado para designar o dom de servir a um ideal ou simplesmente o dom de se comunicar com as pessoas (“líder carismático”). Nas culturas contemporâneas, o conceito de graça tem suas particularidades: o fr.-ingl. grace, o al. Gnade significam mais “misericórdia divina” (clemência, mercy, greg. to “eleos), assim como no judaísmo moderno (hebr. PESAD, “benevolência”, donde hassid).
Por mais que procure, em tratados indianos (antigos e modernos) não encontrei nenhum conceito que, mesmo em parte, correspondesse à ideia de graça. É claro que, em diferentes línguas e culturas, seu conteúdo varia, mas o cerne é o mesmo. E entre os indianos, desde os Vedas até as obras de Krishnamurti, há de tudo: força divina, prana, shakti, ashima, retidão — exceto graça.
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Isso ocorre porque, para os indianos, os “portadores da força divina” (e ainda hoje assim são considerados) não são indivíduos específicos que a mereceram de alguma forma, mas todos os membros da casta dos brâmanes por direito de nascimento. Mesmo que sejas um kshatriya (guerreiro, patrício), por mais heroico que sejas, não conhecerás a graça suprema. E, inversamente, mesmo tendo cometido um crime, um “duas vezes nascido” pode perder o título de brâmane, mas não perderá sua participação na graça superior (cf. os nobres decembristas, privados de “direitos de classe”, mas que não perderam a nobreza inata).
Nesse sentido, a separação do zoroastrismo da religião proto-vedica foi um passo adiante, pois oferecia a possibilidade de salvação não apenas a uma casta de eleitos, mas a todos que aceitassem sua doutrina.
Outra diferença entre a visão de mundo indiana e persa reside no reconhecimento da existência de um par de divindades supremas: o deus do bem, Ormuz, e o deus do mal, Arimã, como dois princípios independentes, cada um agindo segundo sua natureza — um com atos bons, o outro com atos maus. Por isso, os persas são frequentemente acusados de dualismo. No entanto, esse dualismo é relativo, pois tanto Ormuz quanto Arimã são, na verdade, “gêmeos celestes”, filhos do deus do tempo eterno e infinito — Zurvan, embora na “Avesta” ele seja mencionado apenas de passagem.
No próprio zoroastrismo, há pouco esoterismo, e mesmo assim são elementos herdados da mesma visão de mundo indo-iraniana. Muito mais esotérico que o zoroastrismo são seus derivados — “heresias” e doutrinas modernas (por exemplo, “Assim falou Zaratustra” de Nietzsche), uma das quais se dirige diretamente a Zurvan: trata-se do ZURVANISMO (zervanismo), doutrina do tempo infinito.
Zurvan, também chamado Zervan, Zurvan (persa médio; armênio Zruam, Zruan; ing. Zurvan, Zervan): Zurvan Akarana, “Tempo Ilimitado”, deus supremo da mitologia zervanista (Irã), personificação não tanto do tempo, mas do princípio de equilíbrio cósmico (balança, cujos pratos são o bem e o mal). Segundo uma versão, trata-se de um deus andrógino, que “nem sabia o que se formava em seu ventre”. É percebido como tempo infinito, enquanto o mundo é finito e condenado à destruição. Os criadores do mundo são os filhos de Zurvan: Ormuz e Arimã, mas o tempo é mais poderoso que ambos, ou seja, mais poderoso que o bem e o mal. A partir da Pérsia, esse culto se espalhou pela Síria, Palestina e Egito (Éon). Teodoro de Mopsuéstia o chamou de “Tykhe” (greg. tychē — “sorte”, “destino”).
Teodoro de Mopsuéstia (m. 425) – grande exegeta da escola antioquiana, discípulo de Paulo de Samósata. Pela primeira vez, deu comentários detalhados a todos os livros da Bíblia e elaborou “respostas” a todas as heresias. Em 553 d.C. (no V Concílio Ecumênico), ele mesmo foi condenado como herege (nestoriano) por reconhecer em Jesus duas naturezas, a divina e a humana. Escreveu a obra “Sobre os magos na Pérsia”, cujo resumo breve é apresentado por Fócio, patriarca (c. 820–891).
No período da Antiguidade tardia, o zervanismo também se espalhou pela Sicília e pela Síria “entre os magos”, como escreve Bartel Van-der-Waerden (Despertar da Ciência II. Nascimento da Astronomia. Moscou, “Nauka”, 1991). No entanto, no próprio Irã, os seguidores da seita religiosa zervanita foram, em última instância, oprimidos pelos sassânidas, e atualmente quase não restam deles. Contudo, suas visões filosóficas, mais próximas do esoterismo do que a filosofia propriamente dita da “Avesta”, ainda hoje fornecem alimento para reflexões.
Outra seita, não menos interessante do ponto de vista esotérico, foram os maniqueus.
Mani-Zendig, Manes filho de Patál (transliteração latina: Manes ou Mani, 216 – c. 277): fundador do maniqueísmo. Considerava-se discípulo de Faridun. Apareceu no Irã durante o reinado de Sapor, filho de Artaxes (segundo rei da dinastia sassânida), e negou o Zend-Avesta, razão pela qual ele e seus seguidores foram chamados de “zendigas” (daí o árabe zindiq – “herege”). Chamava-se sucessor de Buda, Zoroastro e Cristo.
Segundo al-Balkhi, Mani fugiu das perseguições de Sapor para a China, onde fundou a seita dos abaquitas. O neto de Sapor, Bahram, trouxe Mani de volta ao Irã prometendo legalizar sua doutrina. Mani acreditou e os maniqueus saíram da clandestinidade. Desejando agir “como um rei”, Bahram organizou um debate religioso, e Mani foi considerado derrotado. O rei ofereceu a ele a escolha entre renunciar à sua fé ou morrer. Mani escolheu a morte. Ele foi esfolado e sua pele foi recheada de palha – “e é por isso que todo aquele que se revelar líder dos zendigas tem a pele recheada de palha” (Ibn al-Balkhi, “Fars-Nama”). Seus seguidores foram presos em masmorras, e aqueles que não renunciaram foram executados. Al-Biruni (ver) o chamou de Kurbikos ibn Fattak; entre os romanos, ele era conhecido como Corbitius.
O maniqueísmo foi uma síntese peculiar de visões persas propriamente ditas, sumério-babilônicas e cristãs (gnósticas). Ao contrário dos zervanitas e dos próprios zoroastristas, os maniqueus eram dualistas verdadeiros: consideravam o bem e o mal (luz e trevas, Deus e o diabo) como dois princípios absolutamente independentes e iguais, presentes tanto no Universo quanto no ser humano.
Do ponto de vista contemporâneo, tratava-se de um esoterismo “sem topo”, que nunca atingiu o estágio de “pleroma” (plenitude) por recusar-se a reconhecer a Unidade (Absoluto): sua cosmogonia começava imediatamente com o par. Em comparação com o zervanismo, é, claro, menos desenvolvido, mas mais vívido e contém pelo menos um conceito importante ao qual teremos de retornar – chamemo-lo provisoriamente de “A Rebelião de Lúcifer” (às vezes também chamada de “guerra dos deuses”).
Seu conteúdo é o seguinte. O mal (Lúcifer, Arimã, o diabo – tanto faz se uma força independente ou um “33º departamento” infeliz da Criação, para quem tenha lido Swedenborg ou Vallee ou visto o filme) rebelou-se uma vez contra o Bem, desejando governar o Universo. Quase conseguiu, mas sua vitória final teria significado o colapso do Universo; por isso, entrou em vigor a lei do equilíbrio cósmico (personificado nas mitologias judaico-cristãs como o arcanjo Miguel), e o mal foi derrubado, evitando-se a catástrofe.
Os maniqueus concluíram que Arimã, após sua derrota no macrocosmo, tenta a cada vez tomar revanche no microcosmo, ou seja, tenta seduzir cada pessoa individual, buscando privá-la da “imagem e semelhança de Ormuzde”; por isso, a tarefa do ser humano é buscar caminhos para restaurar essa imagem.
Os maniqueus também pregavam o ascetismo e o celibato, opunham-se ao culto ao fogo (zoroastrismo). Existiam seis “Livros de Mani” em siríaco e um em médio-persa (pártico) (“Livro dos Gigantes”, “Shapurakana”, etc.); nenhum sobreviveu. As visões maniqueístas encontraram muitos seguidores depois tanto no Ocidente quanto no Oriente, mas eles próprios, como já foi dito, foram destruídos.
Hoje em dia, o zoroastrismo, como religião, manteve-se em grande parte com caráter puramente religioso, perdendo elementos filosóficos. Isso não é surpreendente, já que a religião estatal do Irã atualmente é o islamismo xiita, e as comunidades zoroastristas, relativamente pequenas, estão espalhadas pelo mundo. Os zoroastristas (assim como os ciganos) “nunca” se dedicam à filosofia esotérica.
Já a filosofia moderna do “avestismo”, que parece existir apenas na parte europeia da Rússia, é uma reelaboração de mitos iranianos antigos (cujas fontes indianas são evidentes em quase todos os lugares).
Um desses mitos, baseado em um fato histórico – a chegada de tribos indo-iranianas de algum lugar ao norte – e incorporando a experiência da doutrina nazista sobre a raça ariana, deu origem, em nosso solo, a uma teoria peculiar sobre a Arctógea.
ARCTÓGEA: 1. Na esotérica história (e em algumas outras) avéstica – o mais antigo continente primordial, supostamente o berço da humanidade (P. Globa). Entre os nacionalistas europeus contemporâneos, é a pátria da raça nórdica (ariana), portadora de uma cultura superior, em oposição à Gondwana como berço da raça sulista. O movimento convergente dessas raças gerou toda a diversidade cultural, mas as formas superiores de cultura e civilização surgiram onde predominavam os “arctoides”. Para mais detalhes, ver, por exemplo: Dugin A. Teoria Hiperbórea (ensaio de estudo ariossófico). Moscou, 1993.
Shambala
Se tivermos tempo, podemos examinar a lenda de Shambala, que encontrou tão ampla ressonância nos corações de muitos russos contemporâneos.
Shambala, Shambhala, na literatura ocidental também Shangri-Lá (sânscrito: Cambhala, inglês: Shambhala ou Shangri-La): segundo as concepções lamáicas, é um país lendário onde são preservados os mais altos segredos mágicos do tantrismo e do budismo. Dominar esses segredos é o desejo ardente do lamaita, por isso Sh. é percebida como a personificação do mundo futuro do Buda Maitreya. Segundo a lenda, Sh. era um reino na Ásia Central. Seu rei, Suchandra, viajou para o sul da Índia para adquirir conhecimento. Após a invasão muçulmana da Ásia Central no século IX, o reino de Sh. tornou-se invisível aos olhos humanos. Apenas os puros de coração podem encontrar o caminho até ele. Mas em um futuro não muito distante, o rei Rudra Chakrin sairá de lá com seu exército e seu líder para, após uma grande batalha, estabelecer na Terra uma nova comunidade espiritual.
Lendas semelhantes existiram (ou existem) em muitos povos: a Rússia tem Belovodye e a Cidade de Kitezh, em certa medida a alemã Vineta e assim por diante.
Na realidade, Shambala é apenas um egrégor, um campo informacional criado exclusivamente pelo esoterismo ocidental: é um tipo de sonho sobre uma sociedade ideal à qual só os “iniciados” mais dignos teriam acesso. No entanto, como a maioria daqueles que no Ocidente foram declarados “os melhores” revelaram-se pessoas sem escrúpulos, esse campo informacional perdeu muito de sua clareza e pureza original nos dias de hoje.
Nas periferias das civilizações tecnológicas ainda existem comunidades ou mesmo culturas inteiras (e não são poucas) que, por várias razões, não apenas preservam traços de eras passadas – a era de Áries, a era de Touro ou até mesmo de períodos ainda mais antigos –, mas também permitiram que esses traços “sobrevivessem ao seu século”, dando-lhes pelo menos um ou até vários ciclos adicionais de desenvolvimento “além do plano”.
A primeira parte dessa situação, ou seja, a preservação nelas de muitas características da antiguidade profunda, alegra etnógrafos, arqueólogos e outros cientistas que reconstroem a história das sociedades humanas. Mas nós, aqui, nos interessa mais a segunda parte, que implica não tanto a reconstrução de elementos do desenvolvimento dessas sociedades – pois, como já vimos, em toda a Terra eles foram mais ou menos semelhantes –, mas sim o papel e o lugar dessas culturas em nossa vida atual como um todo e na filosofia esotérica em particular.
O papel e o lugar dessas culturas hoje lembrariam, em muitos aspectos, o destino dos imortais de Laputa em Swift, que viveram dignamente uma vida humana e depois passaram vários séculos em completo marasmo, ou a sina de uma planta anual plantada em vaso e deixada no interior aquecido durante o inverno — até o Natal, a planta assume formas extravagantes, não naturais a ela, e até a Quaresma definha e morre, não fosse a poderosa base dessas culturas, única entre todas as outras, posteriores, fiel já pela sua simplicidade e beleza.
Todas essas culturas semelhantes, naturalmente, não poderíamos examinar; listarei apenas aquelas que são importantes para compreender a sua significativa relevância.
Comecemos pela cultura geograficamente mais próxima de nós. Como é sabido, na própria fronteira do nosso espaço-tempo (“dos varegues aos gregos” e dos livros didáticos de história do 5º ao 10º ano) está o Egito — não por acaso, os europeus durante séculos consideraram-no o país civilizado mais distante e o mais antigo.
Já falamos sobre o Egito; agora tentaremos ir além de suas fronteiras.
O Egito Antigo era um grande país. Nas atuais cartas geográficas, seu território está dividido em várias partes, sendo as maiores o próprio Egito (a parte norte do Egito Antigo) e o Sudão (o sul do Egito Antigo).
No Sudão vivem diversos povos, e ao longo dos últimos vinte séculos ocorreram nele vários eventos extraordinários (por exemplo, o surgimento do messias — o mahdi, sobre o qual talvez falemos ainda). Um desses povos é chamado bambara. São negros comuns, de boa compleição física, que também vivem no Mali e em outros países africanos que nunca fizeram parte do Egito.
Para começar, recorramos à cosmogonia bambara — naturalmente, em versão resumida, para captarmos o essencial. Baseado em: Arseniev V.R. Animais — Deuses — Homens. Moscou, 1991.
O mundo surgiu do vazio primordial (ou seja, daquele mesmo caos, cuja definição não se encontra em lugar algum. Mas, no decorrer da exposição, tentaremos defini-lo). O vazio emitiu um som, do qual surgiu seu duplo. De sua união nasceu uma substância úmida (água), e depois ocorreu uma explosão (! — não falávamos sobre o Big Bang?) que gerou a matéria sólida. Contudo, ainda não eram a terra e o espaço; eles ainda não haviam sido criados.
Ao se depositar a matéria sólida (após a explosão), surgiram as coisas e seus símbolos. Então, do caos separou-se a consciência e dirigiu-se às coisas para lhes infundir vida e atribuir-lhes nomes. Assim nasceu o espírito ativo Yo e os 22 elementos fundamentais, dos quais derivam sons, cores, ações e sentimentos (isso não lhe lembra nada?).
De Yo originou-se a divindade Faro, “senhor da palavra”, que criou os sete céus e outras divindades. Nesse processo, Faro corresponde ao elemento ÁGUA (princípio feminino, para simplificar — yin), Pemba, “construtor da Terra”, ao FOGO (yang), a ancestral humana Musso Koroni à TERRA (yin), e o espírito Teliko ao AR (yang). Essa divisão dos elementos segundo os princípios masculino e feminino corresponde, aliás, às visões dos indianos (bramanistas), pitagóricos, cabalistas e sufis.
A semelhança com as cosmogonias já conhecidas é inegável, e com a egípcia salta aos olhos — especialmente se soubermos que os vinte e dois arcanos do Tarô são atribuídos à origem egípcia: segundo a lenda, nos subterrâneos de um templo egípcio antigo eram guardadas vinte e duas placas de ouro, nas quais, sob a forma de desenhos simbólicos, estavam registrados todos os conhecimentos acumulados pelos sacerdotes egípcios. A linguagem muda e morre, mas a imagem é eterna; por isso, os sacerdotes decidiram eternizar seus conhecimentos em imagens.
Assim, a analogia se impõe. Mais do que isso: existem inúmeras lendas interessantes sobre a interpenetração do norte e do sul — por exemplo, a lenda sobre uma legião romana perdida na África Tropical que deu origem a uma linhagem de berberes de pele clara e olhos azuis.
Mas: a história é escrita retrospectivamente!
Além disso, para nós, ao nos aprofundarmos no esoterismo e sabermos que, ao analisar questões existenciais (ou seja, problemas do microcosmo e do macrocosmo), a lei da causa e efeito não se aplica, tanto neste caso quanto em outros não importa quem copiou de quem: se os bambara copiaram dos egípcios ou vice-versa. Ambos refletiram em suas concepções a lei universal do equilíbrio: o Universo é assim e não de outra forma, por isso sua representação na consciência de quaisquer povos e nações será semelhante.
Lembremos a lei marxista da unidade e luta dos contrários ou as palavras de Bhagwan Shri Rajneesh, também conhecido como Osho, grande mestre dos indianos modernos, tanto russos quanto estrangeiros. Voltando ao tema da Índia Antiga e antecipando o tema das doutrinas pós-indianas modernas, pode-se dizer que o mérito de Rajneesh reside justamente na adaptação dos conceitos do pluralismo de deuses e pensamentos pan-indianos à percepção racionalista limitada dos europeus (ou, mais precisamente, do Ocidente em geral). Ele escreveu:
“Os opostos não são opostos. Olhe mais fundo e você os sentirá como a mesma energia” — isso é exatamente o que discutimos em todas as palestras anteriores… Lembrem-se da controvérsia entre Vedanta e Mimamsa: a ilusão é o mundo ou não é?
Mas voltemos às nossas culturas exóticas. Os bambara, como lembramos, também habitam o Mali. O Mali já é a África Tropical, região de cultura ainda mais peculiar. Basta dizer que, na mesma zona tropical, mas não a noroeste, e sim a sudeste, localizava-se o lendário Estado de Monomotapa (território do Zimbábue e Moçambique).
O tempo dessas culturas é cíclico: “o que foi, será; e o que se fez, tornar-se-á a ser feito” (Eclesiastes 1:9). O homem e o Universo, ou mais precisamente, a sociedade humana (comunidade) e o Universo são um só, estão em equilíbrio, cuja perturbação ninguém pode permitir. Para os membros dessas sociedades, “caracteriza-se a orientação consciente, em primeiro lugar, para a reprodução exata da experiência das gerações anteriores e sua transmissão aos descendentes em forma constante” (V.R. Arseniev).
Na tradição científica moderna, tais sociedades ou culturas, estejam elas na África, América do Sul ou Austrália, são chamadas de arcaicas. E, nesse caso, os etnólogos têm razão: afinal, como lembramos, por exemplo, a concepção de ciclicidade do espaço-tempo remonta à era de Touro, e algumas outras concepções, a períodos ainda mais antigos da história humana.
A conservação, ou mais precisamente, a constante reanimação dessas concepções desempenhou na história das “sociedades arcaicas” um papel tão fatal quanto na história da Índia, sobre a qual falamos na palestra anterior. Como escreve a Dra. Irina Timofeevna Katagoshchina (Instituto de Estudos Africanos da Academia Russa de Ciências), “a estabilidade da tradição tornou os portadores da consciência arcaica amplamente desarmados diante das mudanças sociais que se aceleravam na África durante o período colonial e depois” (Katagoshchina I.T. Representações arcaicas de espaço-tempo e progresso social na África Tropical. In: Espaço e tempo nas culturas arcaicas. Anais do colóquio, Moscou, 1992).
Contudo, foi justamente essa “estabilidade da tradição”, baseada nas concepções mais simples e naturais do mundo, que tornou os portadores dessas culturas resistentes a todas as inúmeras inovações da segunda metade da era de Peixes, desde os missionários muçulmanos e cristãos até as tentativas civilizatórias de capitalistas e comunistas. “A civilização tropical-africana sobreviveu”, como constatou um de nossos africanistas.
Parafraseando levemente Dmitri Mikhailovich Bondarenko, brilhante africanista contemporâneo, pode-se dizer que “o que para nós é conteúdo, para eles é apenas forma, e o que consideramos forma, para o africano é conteúdo”. Em outras palavras, um africano pode usar terno com gravata e conversar com você sobre a obra de Kafka, mas, à noite, você irá para casa assistir televisão, enquanto ele se transformará em leopardo e partirá para uma caçada ritual.
Por que o leopardo? Porque “somos da mesma sangue, tu e eu” — isso era bem sentido por Rudyard Kipling, autor de “Mogli”, ao perceber que o europeu da era de Peixes havia perdido demais o contato com sua origem natural, e somente um estresse colossal poderia devolvê-lo ao padrão inicial de comportamento (T. Shibutani. Psicologia Social. M., 1968). Aliás, a famosa ideia de “voltar à natureza” surgiu nos iluministas europeus não por último graças à “descoberta” da África…
Em que consiste essa visão de mundo, tão natural para os portadores de “culturas arcaicas” e tão bem esquecida por nós?
Vamos examiná-la no exemplo dos BÊNIN (beninenses) — povo que habita a costa ocidental da África tropical. Baseado em: Bondarenko D.M. Sociedade beninense às vésperas dos primeiros contatos com os europeus (características stadiais e civilizacionais). Tese. Instituto da África, M., 1993 (manuscrito).
O universo era representado pelos beninenses como vários círculos concêntricos — mundos cujas fronteiras são bem definidas, embora permeáveis. O círculo mais externo e amplo era o Universo, que incluía o mundo densamente povoado de ancestrais, espíritos e outras entidades não materiais; no centro estava a comunidade, da qual fazia parte o ser humano (corpo físico com todos os seus níveis), que, por sua vez, consistia em quatro mundos ou círculos — o “duplo” (corpo etéreo), a alma (corpo astral), o espírito (corpo mental) e o “Eu” superior ( mônada):
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/ U N I V E R S O —————————————–
// Mundo dos espíritos ancestrais e divindades ———————————-
// Sociedade (comunidade) —————————-
| | | | SER HUMANO: | | | |
– alma-duplo, arcabouço imaterial da casca física do homem
– consciência, pensamento, princípio psíquico
– ego espiritual
– superego
A propósito do duplo. “Do ponto de vista do africano, quando uma pessoa adormece em sua esteira, seu duplo sai em cena, percorre o mesmo caminho que o adormecido fazia no mundo real e realiza o mesmo trabalho… É nesse duplo que reside a personalidade da pessoa” (Ksenofontova N.A. Personalidade, sociedade e tempo social. In: Espaço e tempo em culturas arcaicas. Anais do simpósio, M., 1992).
Reconhecemos facilmente aqui o conhecido esquema quaternário de divisão do macrocosmo e microcosmo, além disso, em uma versão dupla, que novamente nos dá os já familiares oito elementos, cuja totalidade constitui o nono elemento, não nomeado, mas implícito (Min Tan, ver aula 4). Se todas as línguas terrestres (tribos) realmente surgiram da África ou não já não importa: a reconhecibilidade do esquema prova que as mesmas leis atuam em toda parte, e “as oposições não são oposições…”
Esse esquema é tão simples e livre de quaisquer “acréscimos culturais” que teorizam advertências e confundem o assunto com detalhes, que pode ser uma brilhante ilustração do princípio de similaridade, conhecido por nós pela formulação de Hermes Trismegisto: “O que está embaixo é como o que está em cima”, sobre o qual falamos na aula 1.
Não é à toa que os africanistas — pessoas geralmente muito acadêmicas, ou seja, distantes da nossa abordagem — também observam que o princípio de similaridade constitui a base mais importante do pensamento dos povos da África Tropical (ver, por exemplo: Girenko N.M. Sociologia da tribo. Formação da teoria sociológica e componentes principais da dinâmica social. M., 1991).
Além disso, para os representantes das “culturas arcaicas”, há muito tempo é clara outra ideia, igualmente importante e que também faz parte das concepções esotéricas mais significativas: o cosmos não é uma estrutura, não é um mecanismo, não é uma construção morta, mas um organismo vivo. Para quem leu obras da Agni-ioga moderna, essa ideia deve ser familiar.
Daí surge a concepção de que a vida é o valor supremo, por isso o assassinato (mesmo de um animal) é o crime mais grave (lembre-se dos mandamentos “não matar” da era de Áries), exceto para os caçadores, razão pela qual os caçadores formam um grupo social especial cujos membros devem observar inúmeros rituais complexos para não permitir a quebra do equilíbrio cósmico, pois não há violação maior do que a retirada da vida (“Concorda que só quem suspendeu pode cortar um fio de cabelo” — Bulgakov M. O Mestre e Margarida. M., “Khud. lit.”, 1973). Daí vêm as inúmeras regras e tabus de caça, bem como rituais de identificação do caçador com o animal a ser sacrificado (os signos de Gêmeos, Câncer e Leão): afinal, no mundo nada deve desaparecer sem deixar rastro, assim como nada deve surgir do nada, caso contrário o equilíbrio será rompido.
Assim, entre os bambaras, acredita-se que, ao matar (destruir, romper a integridade) um objeto, uma energia especial é liberada — “Nyama”, prejudicial, ao contrário da simples energia vital “ni” (ou prana), capaz de influenciar negativamente as pessoas, o equilíbrio e a ordem no mundo. Mas a caça fornece alimento às pessoas, sem ela não se pode viver; por isso o caçador (não um caçador comum, mas membro da casta mais alta, um brâmane, se voltarmos ao tema da aula passada) deve assumir a responsabilidade por não espalhar essa energia para pessoas inocentes, caso contrário ambos sofrerão.
Daí — o desenvolvimento até hoje, ou seja, um sistema de “rituais mágicos e védicos, sacrifícios, observância de tabus etc.” (D.M. Bondarenko). Surgidos na era de caça de Áries, esses rituais mantiveram seu papel como fatores estabilizadores da vida comunitária mesmo no período “pós-Áries”. Sem considerar agora a influência “peixiana” dos mulás muçulmanos e padres católicos na formação da visão de mundo dos povos “arcaicos”, observamos que a colonização (ideológica) aqui não apenas não levou ao desaparecimento das crenças e cultos antigos, mas até os reforçou em certa medida.
Um exemplo disso é o culto VODU, cujo centro é considerado o Daomé, ou seja, o próprio Benim. Vodu (Wodoo, Voodoo) é uma palavra de uma das línguas africanas (parece ser o eve), que significa “espírito”. Na época do tráfico de escravos, os habitantes da costa ocidental da África Tropical foram levados para a América do Norte e do Sul, para Cuba e o Haiti, por isso o culto se espalhou por lá, causando horror nos supersticiosos europeus.
O culto, na opinião do europeu, é realmente muito exótico: “danças de cobras”, sacrifícios, adoração ao grande deus-guerreiro Afa (Ogun) e seus ajudantes sanguinários (semelhantes a Fobos e Deimos de Marte — produto claro da era de Áries), espíritos protetores, espíritos ancestrais, espíritos senhores do cemitério, esquartejamento ritual de cadáveres e, no “anamnese” histórico, até canibalismo, e, claro, “zumbis” — quase o único conceito absorvido pelos europeus do “voduísmo”, como o chamaram, mas que até hoje diverte roteiristas experientes e iniciantes em parapsicologia.
ZUMBI (ing. zombie, do nome de um veneno em língua eve): “morto-vivo”, historicamente — vítima de feiticeiros de tribos africanas, praticado na região do Daomé (atual Benim) e depois no Haiti. À vítima era ministrado na comida um “pó de…”, contendo tetrodotoxina ou outro veneno potente, e a pessoa morria aparentemente, quase indistinguível da morte real. Após alguns dias, o “morto” era reanimado e, perdendo completamente a vontade (consciência), submetia-se à vontade do feiticeiro. Geralmente, as pessoas-zumbis viviam pouco depois disso. Casos de cura (retorno da consciência) são conhecidos, mas são muito raros. Hoje, assim são chamadas pessoas “possuídas por forças sobrenaturais”, ou seja, que perderam a vontade pessoal e se submetem a ordens alheias. Para mais detalhes, ver, por exemplo: Malenkov A., Sarbash U. Qual é o segredo dos zumbis? “Ciência e Vida”, Nº 7/1989, p. 91.
No entanto, esse culto também não passa de uma expressão do mesmo ponto de vista “taurino”, arcaico e de visão de mundo, criado para facilitar a compreensão e memorização por meio de rituais e cerimônias. Como escreve o mesmo D.M. Bondarenko, o comportamento ritualístico para os africanos era apenas “um método ativo de influenciar o curso dos eventos — afinal, pode ser que, de fato, ‘tudo está nas mãos dos deuses e dos ancestrais’? Deve-se temê-los, mas é possível influenciá-los… Além disso, as ações rituais podiam realmente se mostrar eficazes, pois acreditava-se nisso não apenas por aqueles que as realizavam, mas também por todos aqueles a quem elas eram destinadas, seja para prejudicar ou beneficiar.
A eficácia dessas ações, do ponto de vista do esoterismo moderno, também se explica pelo fato de que, ao longo de milhares de anos de existência do vodum, formou-se um poderoso egregor (campo informacional), que, no entanto, possui um tipo de “fechadura codificada”: nem todos podem acessá-lo, mas apenas aqueles que possuem a chave — lembre-se das pedras-chave das cavernas ancestrais da Ilha de Páscoa.
As pesquisas de Thor Heyerdahl deram resultados surpreendentes porque, em primeiro lugar, ele tinha um nome “compreensível” para o egregor local: Terai Mateata. Em segundo lugar, ele recebeu formalmente a pedra-chave, com a proclamação de um texto sagrado e, embora simbólico, um sacrifício. Em terceiro lugar, ele ganhou seu próprio aku-aku (espírito guardião) — uma emanação do egregor. Assim, o aku-aku é, na verdade, o mesmo que o vodum.
A história de Heyerdahl mostra, aliás, que a “chave” do egregor não está ligada à etnia, mas ao que se costuma chamar de “iniciação”, seja uma iniciação formal ou uma etapa necessária de desenvolvimento interior.
O mesmo se aplica a quaisquer outros egregores (não apenas aos “aku-akim”), por exemplo, às artes marciais orientais.
No entanto, tendo sobrevivido por muito tempo além de seu tempo (e abandonado seu espaço ancestral), o vodum perdeu grande parte de seu aspecto esotérico ou, mais precisamente, deixou de desenvolvê-lo. Ele permaneceu no âmbito de uma religião que inclui crenças gradualmente enfraquecidas e um culto bem desenvolvido devido à sua praticidade. Contudo, como não é possível usar o egregor desse culto sem a “chave”, não se encontrarão seguidores de outras etnias, seitas ou mesmo grupos de entusiastas do vodum, embora nos Estados Unidos, aparentemente, seja possível encontrar entusiastas de qualquer coisa. Os espíritos-vodum são cada vez menos necessários às pessoas.
Nesse aspecto, outros espíritos tiveram mais sorte: os Winti. Existe um país chamado Suriname, antiga Guiana Holandesa, ao norte da América do Sul. Sem entrar em uma análise demográfica de sua população diversificada, basta dizer que ele pertence à chamada cultura crioula, que combina elementos das culturas europeias, africanas, americanas (indígenas) e de outras origens. Na cultura crioula, todos esses elementos “se fundiram” em algo qualitativamente novo, próprio e original em todas as esferas da vida humana, inclusive no esoterismo.
A palavra Winti (Gwinti), rigorosamente falando, significa “espírito” (assim como vodum e aku-aku). Mas com essa mesma palavra também se designa a visão de mundo dos habitantes do Suriname, sua “religião popular” ou filosofia.
Quanto à sua origem, o Winti deriva da filosofia de vida dos africanos trazidos para o Suriname como escravos negros. Acredita-se que o Winti permeia tudo o que vive e é composto por dois elementos mais importantes: crenças e cura (e não culto, como nas culturas “arcaicas”).
A primeira crença pressupõe que os espíritos-winti existem em toda parte. Tal espírito pode ser seu ancestral ou não; pode ser o espírito de uma árvore ou de seu signo zodiacal. Mas o winti pode possuir você (“montar” como um cavaleiro em um cavalo). Isso pode ser bom ou ruim. No último caso, a pessoa deve recorrer a seus próprios winti para que eles ajudem a recuperar seu “eu”.
Más ações, desequilíbrios emocionais e a negação de si mesmo ocorrem porque a pessoa perde o contato com seus winti, sem os quais ela não é nada neste mundo. A pessoa rompeu o equilíbrio cósmico e agora precisa ser curada: esse é o sentido da segunda parte da filosofia Winti. Nela, é claro, também há rituais, mas todos são voltados para a cura — tanto do corpo quanto do espírito. Nos rituais do Winti, a pessoa é chamada de “Cavalo de Deus”: os espíritos de seu mundo interior e exterior constantemente a possuem, controlando seus sentimentos e pensamentos. É o que escreve um poeta contemporâneo do Suriname:
Edgar Cairo
Canção da alma perdida
Minha voz soa, mas onde estou eu?
Estou vivo, mas onde está minha alma?
Enquanto a alma está pronta a qualquer momento
para mudar sua forma habitual,
ao cruzar mais um limiar —
ela está viva.
Quem ajuda o peixe
a superar mais um limiar,
a subir cada vez mais alto, tornando-se mais forte
e encontrando sabedoria?
Recuar diante do limiar é a morte.
Assim morre o cavaleiro sem cavalo.
Assim morre o cavalo nas montanhas sem seu cavaleiro,
não encontrando o caminho para o vale.
E estou sozinho. Mas quem poderá me ajudar
a superar mais um limiar?
A cura baseia-se em métodos da “medicina popular”, conhecidos por todos os povos do mundo, principalmente no uso de substâncias naturais e na psicofisioterapia. No entanto, enquanto os meios populares mais simples, cuja escolha é determinada pelas condições naturais da região, são praticamente conhecidos por todos, a aplicação de “receitas compostas” e, mais ainda, de métodos complexos de tratamento já é uma profissão que requer conhecimento e experiência, não apenas na prática, mas também no campo esotérico. As pessoas que exercem essa profissão são chamadas de várias formas: curandeiros, healers ou xamãs.
Nós usaremos a palavra “xamã”, pois já entrou no uso científico como termo (ver, por exemplo: Men A., padre. Místicos pré-históricos. “Ciência e Vida”, Nº 2/1990). Essa palavra penetrou nas línguas europeias do iacutiano no século XVII — compare com a peça de Catarina, a Grande, “O Xamã Siberiano”. Na Iacútia, ela chegou através da Mongólia, vinda da Índia (do sânscrito camas — “calma, tranquilidade”).
Inicialmente, o xamã, sem dúvida, é um produto da era de Touro (lembre-se da terceira lição). O conteúdo dessa “profissão” pouco mudou ao longo de milhares de anos; o que mudou foi apenas o nível de sua compreensão. Hoje, o xamã é, em regra, uma pessoa com formação médica, pertencente ao grupo étnico do egregor (ou seja, à população indígena) — um surinamês, se voltarmos ao último exemplo, ou um chinês, se estivermos falando de acupuntura e possuir uma consciência verdadeiramente esotérica, ou seja, em primeiro lugar, não apenas conhecedor, mas profundamente sensível às leis do microcosmo e do macrocosmo, e, em segundo lugar, plenamente consciente de sua responsabilidade (não se pode violar o equilíbrio cósmico).
Além disso, se os dois primeiros elementos são facultativos (o xamã pode não ter formação médica ou não pertencer ao grupo étnico correspondente), a ausência do terceiro elemento (consciência esotérica) transforma o xamã em feiticeiro, o curandeiro em bruxo.
Na América Latina, a palavra curandeiro (curandeiro) designa um verdadeiro xamã — como Eduardo Calderón, do Equador, descrito por Douglas Sharon em seu livro “O Sábio dos Quatro Ventos” (Sharon, Douglas. Wizard of the Four Winds. The Free Press, Nova York 1978; em alemão: Magier der Vier Winde. Verlag Hermann Bauer KG, Friburgo em Brisgóvia, 1ª ed. 1987). Ele mesmo fala sobre si da seguinte forma:
“Claro, o xamã deve ser bom… Não há outra maneira. Até ao colher plantas, deve-se ir até elas com boa intenção, e elas virão ao seu encontro. Uma pessoa má só encontrará plantas más… Antes de me tornar curandeiro, dei ao meu mestre a promessa: ajudar as pessoas, sem pensar em meu próprio benefício, ajudar a todos que precisam de ajuda — quem quer que sejam e como quer que vivam.”
Já brujo, sem entrar em detalhes linguísticos, significa “mago negro”, “feiticeiro mau”.
Em todos os países do mundo, da Chukotka à Terra do Fogo, os princípios do trabalho dos xamãs são os mesmos. Eles utilizam as conexões existentes entre o mundo visível e o invisível (lei da semelhança), influenciando-os por meio de técnicas milenares desenvolvidas para restaurar o equilíbrio cósmico onde ele foi violado.
No plano visível, essas são ações rituais — dança, música, oração, incenso, manipulação de objetos mágicos (aliás, a cristianização não só limitou, como também enriqueceu essa escolha: xamãs modernos agora usam contas de rosário, crucifixos e orações cristãs). No plano invisível, trata-se de comportamento ritualístico (observância de certas regras de vida e manuseio de objetos). Assim, como escreveu V. R. Arsêniev, “a magia se apresenta não apenas como um conjunto de técnicas (instrumentalismo), mas também como uma forma peculiar de percepção do mundo, como uma estratégia em benefício das pessoas” (Arsêniev V. R. *Zveri — Bogi — Liudi*. Moscou, 1991).
Em muitos rituais xamânicos, substâncias narcóticas são empregadas para atingir o estado meditativo (transe), principalmente sob a forma de tinturas e extratos (bebidas): kola, chicha (“cacto” São Pedro), octli (peyote) na América (daí “octlupuk” — os preparadores de octli), que contêm cocaína, mescalina e daturóides, respectivamente; amrita e soma na Índia, haoma nos persas, que contêm efedrina; ambrosia nos gregos, haxixe nos árabes, entre outros. No entanto, seu uso é rigorosamente dosado e permitido apenas em casos específicos.
Como exemplo, citemos um dos maiores esotéricos russos do início do século — G. O. M. (Heinrich Otto Mebius: *Curso de Enciclopédia do Ocultismo*, São Petersburgo, 1912): se quiser intensificar a percepção — beba café; se desejar aumentar a “emissão” de informações — beba chá. Se quiser intensificar ambos por um curto período — consuma álcool (“dose de compromisso” — 25 g), mas “em hipótese alguma repita a dose”.
Os verdadeiros xamãs nunca tornam seus conhecimentos um mistério — a diferença não é apenas em relação aos xamãs “negros” brujos, mas também aos sacerdotes de cultos puramente religiosos. “Estou pronto para ensinar qualquer pessoa que deseje sinceramente e busque verdadeiramente o conhecimento”, diz o mesmo Eduardo Calderón. Outra questão é que nem todos estão aptos a aprender.
Para concluir, citemos, a propósito, as palavras de outro grande esotérico do início do século, o inglês G. K. Chesterton (1874–1936): “Os verdadeiros místicos não escondem segredos, mas os revelam. Eles não deixam nada na sombra, e o mistério permanece mistério. Já o místico amador não dispensa o véu da mistério; ao removê-lo, encontra algo inteiramente trivial”. *Het Monster. História das doutrinas esotéricas. Aula 7. Suméria e Babilônia*.
Suméria
Mesopotâmia — terra abençoada, não sem razão considerada a “pátria das civilizações”, pelo menos daquelas que costumam ser chamadas de abraâmicas — judaica, cristã e muçulmana. Elas são chamadas abraâmicas porque todas essas três religiões reconhecem Abraão bíblico como seu profeta e ancestral, cuja linhagem, como se sabe, era originária de Ur dos Caldeus (Gênesis 11:31), cidade-estado da antiga Suméria.
Nas línguas semíticas, essa região é chamada Aram-Naharaim (“Aram entre dois rios”, em contraste com Aram Síria — Araméia, de onde era originário Jesus Cristo), e em grego soa semelhante: Mesopotâmia, “entre rios”. Aliás, ambos os seus rios, Tigre e Eufrates, eram considerados dois dos quatro rios do Paraíso.
Os rios do Paraíso — Havilá, Giom, Tigre e Eufrates (Gênesis 2:10–14). Quanto aos dois primeiros rios, há inúmeras versões sobre sua localização (por exemplo, Nilo e Ganges). O próprio Paraíso também estaria, segundo os historiadores bíblicos, próximo ao mar Cáspio (alguns até chegam a identificar sua localização exata).
No entanto, os sumérios não eram semitas. Eles se autodenominavam “cabeças negras” (quem já esteve em Tallinn pode lembrar da “Irmandade das Cabeças Negras”, que possuía vários edifícios importantes na cidade. No entanto, não têm relação alguma com os sumérios, é claro). Se considerarmos a Teoria das Sete Raças, os sumérios pertenciam à sexta sub-raça da Quarta Raça. Eram de pele escura, robustos e atarracados, e falavam uma língua aglutinante (não flexiva, como a nossa), semelhante ao suaíli ou choctaw.
Não se sabe ao certo o significado do nome Suméria. Talvez derive de um dos nomes do deus lunar Sin (Shin). Na Bíblia, a Suméria é chamada “Senaar”; traços desse radical são encontrados no sânscrito *Sumeru* (Meru, a sagrada montanha dos indianos, cujo topo abrigava a cidade de Brama), no nome da rainha Semíramis, entre outros.
A história da Suméria praticamente se encaixa na era de Touro (4000–2000 a.C.). Isso já é suficiente para imaginarmos a essência da “cosmogonia arcaica” suméria, bem conhecida por nós graças às aulas anteriores:
Do oceano primordial (água, princípio feminino, deusa Nammu) emergiram o céu (fogo, princípio masculino, deus Anu) e a terra (feminino, deusa Ki). Depois disso, entre eles surgiu o ar (princípio masculino, deus Enlil).
Em seguida, surgiram os “dingir” — os próprios deuses e espíritos, ou seja, divindades e espíritos que governavam o mar, os astros, os rios e as montanhas, cada campo e cada casa, cada enxada e cada arado (Kramer, Samuel. *A História começa na Suméria*. Moscou, “Nauka”, 1991).
Kramer foi um estudioso meticuloso que coletou e analisou todos os dados disponíveis sobre os sumérios até hoje. No entanto, pelo que escreveu e pelo que evitou escrever, percebe-se que também não estava livre de “pressupostos ideológicos” e, por isso, eliminava sem piedade tudo que pudesse sequer remotamente lembrar esoterismo.
Depois, houve várias tentativas de criar o homem (a partir do barro): diferentes deuses competiam nesse feito, mas sem sucesso — tudo resultava em monstros, seres assexuados ou desprovidos de inteligência… Um paralelo notável com os mitos maias (*Popol Vuh*, Moscou, 1959, reimpressão 1993), bem como com a Teoria das Sete Raças.
Os espíritos-dingir eram bons e maus: uns ajudavam os humanos, outros atrapalhavam, e alguns, como outrora, ora ajudavam, ora atrapalhavam. Por isso, o culto desenvolveu-se segundo um esquema já conhecido por nós — uma combinação de crenças e rituais que incluía a propiciação dos espíritos, sacrifícios e, não menos importante, a cura.
O mesmo Kramer apresenta exemplos de receitas completamente profissionais de pomadas, misturas e emplastros da época por volta de 2300 a.C. Ele se alegra por não haver “nenhuma mística ou magia” nessas receitas, esquecendo-se de que, na cultura arcaica, qualquer ação já é magia, e a cura, em especial. Até hoje, um bom médico não pode deixar de ser um mago; caso contrário, não será um bom médico.
Os sumérios não conheciam vírus ou bactérias e raciocinavam de forma simples: se o mundo é governado por espíritos, então cada doença também tem seu próprio espírito (geralmente mau). As misturas e emplastros serviam para ajudar o corpo humano a combater a doença, mas o principal era lidar com o espírito mau que havia tomado posse de sua alma. Por isso, além de preparar remédios, eles realizavam manipulações mágicas sobre eles, rezavam aos deuses e espíritos bons e invocavam os maus. Às vezes, faziam uma estatueta do “espírito causador da doença” e a aplicavam sobre a parte doente. “Nessa concepção”, escreve Alfred Lehmann (que já mencionamos), “a magia torna-se uma necessidade” (*História ilustrada de superstições e feitiçarias*, Moscou, 1900, reimpressão Kiev, 1993).
O mais interessante é que, do ponto de vista do esoterismo contemporâneo, a questão é exatamente a mesma. As doenças não são explicadas apenas (ou principalmente) pela ação de vírus e bactérias, mas pela disposição da pessoa em aceitar essa ação.
“Julgue você mesmo — ao nosso redor há inúmeros vírus, bactérias e outros seres nocivos”, escreve o escritor alemão contemporâneo R. Rosendorfer, “e as próprias pessoas muitas vezes não têm a menor ideia de higiene… Sem dúvida, já estaríamos todos doentes há muito tempo se as doenças obedecessem apenas às leis físicas. Na realidade, porém, se uma pessoa não quer adoecer, ela não adoece — assim como não se envolve em um acidente se não quiser.
“O ‘querer’ (disposição) de uma pessoa de adoecer ou se acidentar muitas vezes revela-se como resultado de seus maus pensamentos, raiva, inveja, ou seja,





